natalia

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Aviso aos Psicóticos


Vou-me embora pra longe da internet e só volto no ano que vem.

Pra quem fica, uma ótima virada! Só cuidado para não virar demais, especialmente o copo, e depois não lembrar do que fez. Digo por experiência própria, não é bacana. Ou de repente é, né? Eu que não me lembro...

Beijocas e muito obrigada por terem feito parte do meu mundinho psicótico esse ano. Espero vê-los por aqui em 2010 - que, segundo o horóscopo austro-húngaro, é o ano da Psicose.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Vai tomar no karma!


Eu sou uma boa pessoa. Faço trabalhos voluntários, não desperdiço água, pago minhas contas em dia. Tá, eu sei, eu não faço nada disso. Especialmente a última parte. Mas eu sou uma boa amiga. Sou generosa. Dou bons presentes. Sempre me preocupei mais com os sentimentos dos outros do que com os meus próprios - salvo raríssimas exceções que me enchem culpa até hoje.
Então a pergunta que não me sai da cabeça é: "Cadê-a-porra-do-karma?" Ele existe? Por que não dá as caras pra mim, nunca? Tá bom, nunca é um exagero. Mas, sério. Não sou invejosa. Quero que todo mundo seja feliz (ok, todo mundo menos uma lista de doze pessoas que merecem o sofrimento eterno). Só que agora eu vou dizer uma coisa que vai soar como um argumento de uma criança de cinco anos fazendo bico:
E eu?
Sério. E eu? Há tempos que eu fico feliz pelos outros. Quando é que eu vou poder ficar feliz por mim?
Posso não ser a melhor amiga ou a melhor filha do mundo. Posso não dar esmola aos desabrigados. Posso, inclusive, chegar a ofendê-los um pouco quando eles passam de pedintes a insistentes. Posso, acidentalmente, chutar crianças no shopping. Posso sentir um prazer sádico ao ver o povo queimando os pés na areia escaldante da praia de Copacabana. Posso ser horrível às vezes, especialmente pela manhã, antes de tomar café. Mas eu sou uma boa pessoa. E já estou ficando de saco cheio de nunca ser recompensada.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Pelotão, sentido!


Não me considero uma garota difícil. Posso ser neurótica, paranóica e obsessivo-compulsiva, mas, tirando isso, não sou exatamente complicada.
Nunca fui boa em joguinhos, apesar de dominar todos eles na teoria. Não minto bem, apesar de ser uma razoável intérprete de mim mesma.
Quando se trata de sentimentos, meu primeiro impulso será sempre o mais legítimo.
É por isso que eu não me conformo com certas atitudes que eu vejo ou escuto falar por aí. Cheguei a elaborar um manual de como chamar uma psicótica para sair e, apesar de algumas regras terem suas exceções, existem aquelas que precisam, invariavelmente, ser respeitadas. São invioláveis, como os códigos guerra.
A primeira delas diz respeito à antecedência. As únicas pessoas para quem eu ligo em cima da hora são os meus amigos mais próximos. E eu estou falando de quatro, cinco pessoas no máximo. Para todos os outros, no mínimo, uma hora.
Então, veja bem. Se eu tomo esse cuidado todo com quem eu sequer troquei fluidos corporais, imagina com quem eu tenho um histórico de intercâmbio. Minha regra é: quanto mais complexo for o histórico, maior a atenção que deverá ser dada a antecedência.
Porque quando você chama uma pessoa para sair tão em cima da hora, é quase como se você dissesse: "olha só, eu tava por aqui mesmo, ninguém pôde vir, então eu te liguei" - o que, para um amigão, pode até ser aceitável. Mas se há um histórico, é bom ter disciplina.
Isso inclui ligar mais cedo e perguntar o que a pessoa quer fazer ou que filme ela quer ver - deixando claro que o plano é encontrá-la, independente da programação do Segundo Caderno ou da proximidade geográfica do cinema em relação a sua casa.
Outra coisa que me incomoda - e que, na minha opinião, fere os códigos de guerra - é a falta de firmeza nas decisões.
Imagine que você está num pelotão. Se você der um passo à frente, amigo, já era. Não dá mais pra voltar. "Ou vai ficar de veadagem?", o comandante vai questionar.
Antes de assumir uma posição, pense. Porque uma vez dado esse passo, será bastante patético olhar pro lado, assobiar e fingir que não é com você.
Se for pra tomar uma iniciativa, tome-a com firmeza. Caso contrário, nem se dê ao trabalho. Pede pra sair! Que o pelotão se vira bem, aspira.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Então é Natal...

Primeiro eu me arrependi de ter acordado. De abrir os olhos e pensar onde caralhos eu estou(?). Depois eu me arrependi por não lembrar de metade das coisas que aconteceram na noite anterior - só para, logo em seguida, me arrepender ao lembrar da outra metade. Aí veio a náusea, a dor de cabeça e o arrependimento pela segunda garrafa de vinho. Na manga direita da blusa, uma grande mancha roxa, cercada por várias outras menores, como se a minha roupa tivesse seu próprio sistema solar composto por gotículas de vinho. Me arrependi de ter bebido direto do gargalo enquanto dançava "Paint It, Black".
"Bom dia", alguém me disse.
E eu sorri. Nada arrependida.

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(TRILHA NATALINA: "Paint It, Black" - Rolling Stones)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

I Started A Joke

Foi preciso uma noite e uma garrafa de vinho para entender. Que quando você faz piada das coisas que te incomodam, a piada se vira contra você. E te dá o troco.

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Agora, se vocês me derem licença, eu vou ali fazer algo de que eu provavelmente me arrependerei amanhã.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

15 de dezembro de 1949


Há um ano, eu escrevia o primeiro texto deste blog. Lembro de estar diante deste mesmo batcomputador, neste mesmo batquarto e com uma sensação reconfortante de que este seria o meu ano.
Nunca considerei essas tais "Festas" muito festivas. Primeiro porque eu sou judia - o que significa que enquanto todas as outras crianças ganhavam presentes e compreendiam o verdadeiro significado do Espírito de Natal, eu passava a noite sozinha assistindo "Esqueceram de Mim" na TV.
O segundo motivo é a pressão massacrante que as pessoas fazem para que você tenha um Feliz Ano Novo. Sempre a mesma coisa. Vai chegando dezembro e a pergunta já começa a se proliferar como uma virose ou um spam com supostas fotos da Leila Lopes tomando antidepressivos via supositório.
Eu acho que as pessoas deviam fazer um pacto de solidariedade e nunca mais perguntar o que os outros planejam para o Reveillon. Pra mim esse é o verdadeiro sentido de Confraternização Universal - o dia em que as pessoas do mundo inteiro ficam livres de dar satisfações da própria vida. Até porque, a maioria delas não está satisfeita com o ano que passou. Ao contrário, quase todas se sentem sozinhas, frustradas ou simplesmente entediadas à espera de que algo aconteça no ano que vai nascer.
Mas, sem dúvida nenhuma, a razão que mais me irrita é aquele maldito midnight kiss de que as pessoas tanto falam e que eu nunca, nunca, nunca recebi. Nunca. É engraçado como eu já fiz coisas completamente malucas, mas não experimentei as mais singelas, como ser a namorada de alguém ou receber um beijo na virada do Ano Novo.
Neste ano, por duas vezes, eu acreditei que pudesse ter as duas coisas.
Mas não aconteceu.
Por outro lado, como tantas outras extravagâncias que me acontecem, recebi um convite para uma festa temática dos anos quarenta em um casarão na serra. Só que o RSVP deveria ser dado até o dia quinze. E eu não conseguia responder.
Porque no instante em que eu soubesse onde estaria no Ano Novo, automaticamente saberia onde eu não iria estar. E talvez eu quisesse estar nesse lugar.
Mas no dia quinze este blog completou um ano. E eu sei que apesar de tudo parecer igual, muita coisa mudou. Quando me dei conta disso, soube exatamente o que eu tinha que fazer. (ATENÇÃO: se você for um homem heterossexual, pule o próximo parágrafo e vá até a seção "EXTRAS DO POST".)
Abri o armário, separei uma saia lápis preta, uma blusinha rosa de botões e babados, um sapato peep toe nude (tá, eu falei nude, mas a verdade é que ele é bege ou creme ou uma dessas cores que habitam o guarda-roupas da sua avó) e saí coletando acessórios.
Uma vez escolhida a roupa, não foi tão difícil dar o próximo passo.
RSVP. E enviar.
No dia 31, eu não sei se vou ganhar um midnight kiss, mas vou festejar como se fosse 1949. E, talvez, quem sabe, 1950 seja o meu ano.

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LIZA MINNELLI em 72, mas com carinha de 63.

ACESSÓRIOS. Ainda queria umas luvinhas...


EXTRAS DO POST

Versão alternativa para homens heterossexuais:

(...)Mas no dia quinze este blog completou um ano. E eu sei que apesar de tudo parecer igual, muita coisa mudou. Quando me dei conta disso, soube exatamente o que eu tinha que fazer.
Chamei minhas melhores amigas Rê e Lu para uma festa do pijama, enchemos a cara de vinho, ficamos só de calcinha e fizemos guerra de travesseiro por horas. Em câmera lenta. Deve ser por isso que durou horas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Da Série: Rapidinhas da Psicótica


"Rua Mena Barreto, por favor", disse, ao entrar no táxi.
"Ok, então eu vou entrar na Paulo Barreto", o motorista avisou.
"Não, não. Mena Barreto", corrigi.
"Eu sei. Mas pra chegar na Mena Barreto eu tenho que pegar a Paulo Barreto", ele explicou.
"Caraca, a família Barreto comprou todas as ruas de Botafogo?"
O taxista riu.
"Quando eu for rica, vou fazer o mesmo", disse. "Mas em vez do meu sobrenome, vou colocar nomes de coisas escrotas, só de sacanagem."
Ele riu outra vez, enquanto eu prosseguia com as elucubrações. "Diz aí a coisa mais escrota que você pensar", pedi.
O homem, que devia ter uns 40 anos, refletiu por alguns segundos e concluiu. "Cu."
Ainda transtornada com a resposta, levei alguns instantes para me recompor. "Desculpa, você disse cu? Tipo...Rua Cu?", perguntei, ainda sem acreditar. "Cu é a coisa mais escrota que você poderia pensar?", questionei. "Nossa. Eu devia te apresentar pros caras com quem eu saio. Eles tendem a pensar um pouco diferente..."
E, novamente, ele se pôs a rir - enquanto eu fiquei quieta com cara de rua escrota.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Queen of Hearts


Eu estava saindo do trabalho com dois colegas quando comentei sobre o novo DVD de Natal da Xuxa. "Ela tá usando um terninho branco. Um terninho branco!", repeti. "Quando ela descia de uma nave usando roupas excêntricas, as crianças se impressionavam. Mas agora ela é só uma senhora num terninho branco."
Meus colegas se entreolharam.
"Se pelo menos ainda tivesse o Dengue ou o Praga...", pensei alto.
"Você não devia dizer essas coisas, Natalia", um dos colegas me alertou. "Nunca se sabe quem pode estar ouvindo".
"Ah, qual é, gente?!", rebati. "Não é como se existisse um dispositivo que fosse ativado toda vez que alguém falasse mal da Xuxa", completei, olhando para a câmera de segurança da portaria.

CORTA PARA:
Sala de controle.
Alarme dispara e vemos uma luz vermelha piscando continuamente. No monitor, há um mapa com uma seta apontando uma localização específica.

Na manhã seguinte, eu estava abrindo a porta da redação com um copo de café em uma mão e a chave da sala na outra, quando me deparei com uma visita inusitada.
"Chegou aos meus ouvidos que você não gosta muito da minha roupa", a pessoa disse, girando a cadeira na minha direção.
Ainda com sono, tive uma certa dificuldade de assimilar que estava de frente pra Xuxa. Ela estava de óculos escuros, pernas cruzadas e vestia um terninho branco.
"E então? Você tem alguma ideia melhor pra me dar?", ela perguntou, tirando os óculos. "Tenho certeza de que você terá ótimas sugestões. Afinal, você é figurinista, né?"
"Na verdade, eu sou roteirista", corrigi.
"Eu sei". Ela disse, mordiscando a haste dos óculos. "Eu estava sendo sarcástica."
"Ah", soltei, constrangida. "Deve ter sido algum engano, eu nunca falaria mal de você."
"É mesmo?", perguntou, juntando as mãos sobre o queixo. "Então você não vai se importar se eu der uma olhada nas imagens de segurança do prédio...", disse, enquanto ligava o DVD.
"Mas agora ela é só uma senhora num terninho branco", eu dizia, na gravação.
"Essas imagens estão péssimas, você não pode provar que sou eu", aleguei, enquanto o vídeo prosseguia.
"...Você não devia dizer essas coisas, Natalia", dizia meu colega, na gravação, enquanto a Xuxa me encarava, impassível.
"Tá, ok, sou eu", confessei, sem aguentar a pressão. "O que eu posso fazer pra me redimir?"
Ela pausou o vídeo e se inclinou para frente. "Se ajoelhe e me chame de Rainha.”
Eu ri, a princípio. Depois percebi que ela não estava brincando.
"Quê?", perguntei, confirmando.
"Você ouviu. Se ajoelhe perante mim, súdita."
"Eu... tenho quase 1,80 de altura. Eu não sou exatamente seu público alvo."
Ela permaneceu impassível.
"Porque você é a Rainha dos Baixinhos e tal..." - tentei explicar.
"Você se acha engraçada, Natalia?"
Pensei por alguns segundos e concluí. "Não.”
"E então? Você vai ou não me aceitar como sua Rainha?"
"Eu não sei...", respondi, confusa. "Tudo bem se a resposta for não?"
Ela se afastou um pouco e respirou fundo, como se estivesse pensando no próximo passo. "Você acha que eu gosto de fazer isso? Você acha que eu queria estar aqui?", ela perguntou. "Eu tenho uma mansão com um lago. E um mini-zoológico. E um restaurante japonês”, ela encadeava. “Você gosta de Hot Philadelphia, Natalia?”
"Amm...sim.”
"É só dizer que eu sou sua Rainha e você poderá comer quantos Hot Philadelphias quiser.”
“Tentador...mas não, obrigada.”
“Isso não vai ficar assim", ela disse. “Eu tenho vinte e cinco anos de carreira. Não vai ser uma garotinha presunçosa que vai me desafiar.” Em seguida, levantou-se e andou até a porta. "Ninguém diz não à Rainha."
"Nossa, que baixo astral, Xuxa. Pensei que você fosse contra."
Ela ficou parada por alguns instantes.
"Sério? Você realmente trabalha com humor?", questionou. "Eu vou ligar pro seu chefe e perguntar se esse é o tipo de gente hilária que ele contrata."
Depois ela colocou os óculos escuros de volta e se foi.

Ainda naquele dia, coisas estranhas começaram a acontecer. Ao sair do trabalho, pedi para segurarem o elevador, mas ninguém se moveu enquanto a porta se fechava. Nenhum ônibus ou táxi parou pra mim. E quando eu fui comprar um cachorro-quente, o cara do carrinho disse que tinha acabado de vender o último – o que eu achei bastante estranho, porque todo mundo sabe que aqueles cachorros-quentes são infinitos.
Na manhã seguinte, entrei na internet e descobri que não tinha mais amigos no Orkut nem no Facebook. No meu Twitter, não havia restado sequer um seguidor. E, pra piorar, alguém tinha cortado meu telefone. Provavelmente porque eu não tinha pago a conta.
Foi aí que eu percebi que tudo fazia parte de uma conspiração para me banir da sociedade. Uma sociedade claramente regida pelo sistema monárquico. Eu havia rejeitado a Rainha. E isso implicava em consequências drásticas.
“Ela está tentando mostrar quem é que manda, mas eu não vou me render assim tão fácil”, disse aos meus colegas, que permaneceram em silêncio, me encarando como se eu fosse uma espécie de lunática. "Ela pode ser a Rainha, mas eu sou uma psicótica. Essa senhora de terninho branco não sabe com quem está lidando”, concluí, com olhar vidrado no horizonte.
“Natalia...”
“Sim?”, perguntei, ainda com o olhar vidrado no horizonte.
“Você andou bebendo?”
“Sim, mas essa não é a questão”, tentei explicar. “Nós estamos diante de uma conspiração. E se vocês não fizerem nada pra impedir, vocês serão cúmplices”, declarei, me dirigindo à rua, onde comecei a abordar estranhos e abrir seus olhos para aquela realidade cruel.
Foi quando um mendigo se aproximou e disse que precisava me contar uma coisa importante. Eu disse que estava sem trocado e mandei ele sair. Mas ele insistiu, então eu tirei algumas moedas do bolso, junto com um Trident que devia estar ali há semanas, e entreguei na mão dele.
“Eu não quero seu dinheiro, pode pegar de volta”, ele disse. “Só deixa o Trident que eu não escovo os dentes há dois meses.”
“O que você quer?”
“Você acha que eu sou só um mendigo, um vagabundo?”, perguntou. “Eu costumava ser jornalista. Era um jovem promissor. Até que um dia eu escrevi uma crítica negativa sobre ‘Lua de Cristal’ e, quando dei por mim, estava escovando os dentes com Trident velho...”
“Meu deus”, soltei, em choque. “Ela é um monstro”, completei. “Vocês ouviram o que esse mendigo nojento disse? Alguém precisa fazer alguma coisa!”
Foi nesse momento que um carro preto de vidro fumê parou na esquina e eu fui sequestrada por dois sujeitos estranhos que usavam meias para cobrir o rosto.
Eles me levaram até uma sala escura, me amarraram numa cadeira e ficaram tentando me assustar, fazendo vozes malucas.
“Escuta, eu sei que vocês são o Dengue e o Praga”, avisei.
“Droga!”, gritou Praga, tirando a meia. “Eu disse que a gente precisava de um disfarce melhor, mas nããão, só uma meia resolve, ela nuuunca vai nos reconhecer... ”
“Eu não disse meia. Eu disse óculos. Óculos. Igual ao Clark Kent”, explicou.
“Você é um idiota, Dengue.”
“Então, gente”, interrompi. “Alguém vai me dizer qual é a boa?”
“Qual é a boa?”, repetiu Praga. “Eu vou te dizer qual é a boa. A boa é você parar com esse motim contra a Rainha! Você não percebe que é inútil? Ninguém nunca foi nem nunca será capaz de tirá-la do trono”, ele completou, enquanto eu não pude conter o riso.
“Ela tá rindo da gente, Praga.”
“Desculpa”, disse, rindo ainda mais. “É que o jeito como você disse que ela não vai sair do trono...”
“Qual é a graça?”, perguntou Praga, intrigado.
“Você sabe... o trono....”, tentei falar, quase sem fôlego de tanto rir. “É como se ela estivesse com uma dor de barriga eterna...”
Os dois se entreolharam, sérios.
“Eu pensei que ela trabalhasse com comédia”, disse Dengue.
“Foi o que me disseram...”
“Ei, eu ouvi isso”, reclamei.
“Já chega, garota”, disse Praga, impaciente. “Se você prefere o caminho mais difícil, a gente vai te dar o caminho mais difícil”, avisou, enquanto ligava um telão. “Espero que você se divirta.”
E deu play:
"Cinco patinhos foram passear, além das montanhas para brincar. A mamãe gritou: quá, quá, quá, quá. Mas só quatro patinhos voltaram de lá..."
“Bom, essa é uma mãe bastante irresponsável”, afirmei.
“Vamos ver se você vai continuar tão espirituosa quando a gente voltar”, desafiou Praga. “Daqui a seis horas.”

CORTA PARA:
Seis horas depois.
“Cinco mil patinhos foram passear, além das montanhas para brincar. A mamãe gritou: quá, quá, quá, quá. Mas todos os patinhos tinham virado foie gras”, eu cantava, enquanto o Dengue e o Praga retornavam à sala.
“Estou vendo que você aprendeu a música direitinho”, disse o Praga. “E então? Pronta para aceitar a Rainha no seu coração?”
“Oitocentos milhões de patinhos foram passear...”
“Praga, eu acho que ela ficou aqui tempo demais. A gente fritou a cabeça dela!”
“Ela está blefando!”, o Praga acusou. “Chega dessa palhaçada! Responde de uma vez! A Xuxa é ou não é a sua Rainha?”
“Quá, quá, quá, quá”, respondi.
“Ah, é? Você quer jogar? Então vamos ver se a Jack Bauer vai resistir a mais seis horas de patinhos...”, Praga esbravejou, dirigindo-se à porta.
“Não, espera”, eu disse. “Eu desisto. Eu aceito a Xuxa como a minha rainha!”
Os dois sorriram, orgulhosos, e já estavam a ponto de me soltar da cadeira.
“NOT!”, completei, só de sacanagem.
“Ninguém nunca aguentou por tanto tempo, Praga. Não há mais o que fazer!”
“Idiotas”, disse a loira de terninho branco que adentrava a sala escura. “Deixem essa aí comigo, seus incompetentes”, ordenou, puxando uma cadeira para perto de mim e sentando-se como uma detetive durona, com o encosto virado para frente. “Como vai a minha baixinha preferida?”
“Eu não sou mais baixinha desde a primeira série.”
“Não seja boba. Pra mim você sempre será uma baixinha.”
“Como quiser, Xuxa...”
“Por que você não me chama de Xu?”, propôs. “Sabe, Natalia, eu conheço o seu tipo. Espichou rápido, era a mais alta da turma, desajeitada... excluída”, lançou, enquanto puxava um fio solto da manga do terninho branco. “Você queria ir ao Xou da Xuxa, mas ninguém nunca te levou. Você queria ser Paquita, mas não era loira, nem bonita, nem popular, não é mesmo, Natalia?”, ela disse, enquanto meus olhos se enchiam de lágrima. “E eu aposto que você colecionava os meus discos”.
“Eu tinha todos, Xuxa!”
“Xu.”
“Eu tinha todos, Xu!”, corrigi. “Mas quando eu fiz dez anos, meu padrasto jogou tudo fora. Ele disse que eu já estava grande demais pra gostar de você. E isso foi traumático”, expliquei, aos prantos.
“Pronto, pronto, vem cá”, ela disse, enquanto me abraçava e dava tapinhas nas minhas costas.
“Eu te amo, Xu. Você é a minha Rainha”, finalmente declarei.
“Gravou isso, Praga?”, ela perguntou, em tom sóbrio.
“Tá tudo aqui”, ele respondeu, mostrando o gravador.
“Ok, querida. Já deu, né? Chega de abraço. A Xuxa tem que ir embora”, disse, tentando se desvencilhar. “Vamos lá? Vamos soltar a Xuxa?”
Então eu soltei, contra a minha vontade. Mas antes mesmo que ela saísse, eu a chamei de volta.
“Xu, faz a pergunta”, pedi.
Ela parou e me olhou, sem entender. “Que pergunta?”
“Você sabe, a pergunta”, insisti, sorrindo.
Ao entender, ela revirou os olhos e soltou um suspiro entediado. “Quer mandar um beijo pra quem?”, perguntou, sem o menor entusiasmo.
“Pro meu pai, pra minha mãe e especialmente pra você, Xu!”, respondi, eufórica.
Depois ela se virou e foi embora, reclamando com o Dengue e o Praga. “Vinte e cinco anos e eles ainda me pedem a mesma coisa...”
“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, disse Praga. “A propósito, o que você vai fazer mais tarde?”
“Praga, desiste. Eu não vou sair com você...”

Por alguma razão, eles me esqueceram amarrada na cadeira com o telão ligado. Depois de alguns minutos com o menu inativo, o disco começou a rodar automaticamente. Levou mais seis horas para que alguém me encontrasse.

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XUXA, antes de entrar pra Realeza. (Que Sera Sera - Doris Day)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Da Série: Piores Encontros do Universo


2 - O Cara que Gostava de Correr

Sabe quando você conhece alguém e percebe, logo de cara, que as coisas vão funcionar? A conversa flui sem esforço, os dois se divertem juntos, o beijo é ótimo e todo o resto também... Mas aí não dá certo e você tem que voltar para o mercado, arrastando o sari com o rabinho entre as pernas, à procura de uma nova pessoa, sabe?
Eu sei. Não foi à toa que me auto-intitulei "Rainha dos Primeiros Encontros". Se achar um cara interessante fosse fácil como fazer compras, eu não estaria aqui escrevendo neste blog à uma da manhã.
Pra ser bem sincera, não é mole se aventurar nesse mercado. Ao contrário, é extremamente exaustivo. Toda vez que você retorna, tem sempre aquela sensação de "ai, não, tudo outra vez". Toda aquela rotina de flertar, trocar telefones, combinar de sair... E quando vocês finalmente se encontram, ainda têm que passar por aquela conversinha preliminar, contando o que fazem, onde trabalham, onde estudaram....zzzZZZzzz... Oi? Perdi alguma coisa?
Sem contar com as piadinhas. Sim, porque você quer ser divertida, engraçada, inteligente. Aaaahh! Desculpa, mas haja saco! Ninguém merece passar por isso mais de duas vezes por ano. E, mesmo assim, eu sou a "Rainha dos Primeiros Encontros". O que significa que realizo essa pequena rotina quase toda semana. É como se o barzinho se transformasse num circo dos horrores, enquanto eu fico ali fazendo meu número no picadeiro.
"Você faz o que mesmo?", pergunto.
"Sou administrador", ele responde, enquanto eu me esforço para não parecer muito entediada.
"E o que você faz normalmente?", pergunto outra vez, tentando mostrar interesse.
"Ah, deixa pra lá, meu trabalho é chato".
Graças a deus, penso. "Não, fala, eu fiquei curiosa", insisto, na esperança de que ele mantenha a decisão de não me contar.
"Então tá, depois não diz que eu não avisei... Bom, normalmente, eu fico responsável pelo setor de finanças..."
Zzzzzzzzzzz...
E enquanto ele fala, meu olhar se fixa no casal da mesa ao lado. Mais precisamente nos dedos da moça, que tamborilam impacientes sobre o vidro, provocando um som hipnótico. Olho para ela e percebo que seu olhar também está perdido. Mas quando ela me vê, eu fico desconcertada e volto a prestar atenção no que o cara em frente a mim está falando.
"... mas o que eu gosto mesmo é de correr!".
"Desculpa, correr de quem?"
"Não, correr só por correr."
"Por que alguém faria isso?"
"É ótimo, você devia experimentar".
"Eu tentei. Por um ou dois...minutos", explico. "Mas aí eu pensei: eu tô correndo pra onde, meu deus? Qual o propósito disso? Foi aí que eu parei, dei a volta e fui comer um cachorro-quente."
"Cachorro-quente?"
"É. Foi ótimo saber exatamente pra onde eu estava indo. Você devia experimentar."
Silêncio.
"Bom, eu corro todos os dias", ele insiste. "Eu corri ontem, corri hoje, amanhã eu vou correr, sábado eu vou correr... E domingo..."
"...Você vai correr...", completo.
"Não", ele responde num tom de desdém, como se eu tivesse dito alguma coisa absurda. "Domingo eu vou andar de kart."
O que caralhos eu estou fazendo aqui?, penso, enquanto me vejo repetindo o gesto da moça da mesa ao lado. Ok, eu estou aqui porque ele é extremamente gato. E dez centímetros mais alto do que eu. Dez! Concentra nisso.
"As meninas do trabalho adoraram seu blog", ele muda de assunto. Finalmente um assunto interessante.
"E você, gostou?", arrisco.
"Não", ele responde, na lata. "Achei meio mulherzinha, não é muito meu tipo de humor não."
Jura? Qual é o seu tipo de humor? Correr? Correr com uma perna só?, penso, dando uma leve entortada na boca.
"Você tem uma boquinha linda, sabia?", ele diz.
"Ah, é", pergunto, indiferente. Então leia meus lábios: não me liga NUNCA MAIS. Depois invento uma desculpa qualquer e vou embora cedo.

Após uma certa idade, as pessoas não saem mais por aí fazendo novas amizades. Elas meio que sossegam com os amigos que fizeram até então. Porque ninguém tem mais saco de ficar cativando gente, desculpa, Saint-Exupéry. A vida é muito corrida, o tempo é curto e, quando dá, nós saímos com quem já temos afinidade e nos sentimos confortáveis. Alguém com quem temos uma história, que nos conhece e que conhecemos bem.
Queria que essa lógica também se aplicasse aos relacionamentos amorosos, mas, infelizmente, não é assim que funciona. No que concerne a esse campo, é preciso, de tempos em tempos, começar tudo outra vez e conhecer gente nova.
No meu caso, como "Rainha dos Primeiros Encontros", eu ainda devo fazer isso mais algumas vezes até dar a sorte de encontrar alguém e perceber logo de cara que as coisas vão funcionar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Radar Psicótico


Gostaria de agradecer ao site Radar55 e à jornalista Maria Clara Drummond, que escreveu uma matéria super legal sobre o Adorável Psicose.
Eu fiquei tão animada que saí mostrando pra todo mundo, inclusive para o taxista, que não pareceu muito interessado - especialmente quando eu coloquei o celular na frente dele, enquanto ele estava dirigindo.
Ó a matéria --->aqui<---.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Leia Minhas Mãos


Se você quiser saber como anda minha vida afetiva, basta analisar o estado das minhas unhas. Não adianta checar meu status no Facebook, procurar por recados suspeitos ou pistas escondidas pelos posts deste blog. Tudo o que você precisa para saber se eu estou ou não saindo com alguém interessante é dar uma boa olhada para minhas mãos.
Quando minha vida afetiva vai bem, eu me transformo numa pessoa extremamente religiosa, que reafirma sua fé toda semana em um templo sagrado chamado Salão. A Manicure é minha pastora e nenhum esmalte me faltará. Especialmente toda a gama de tons vermelhos já produzida pela indústria dos esmaltes - se é que posso chamá-la dessa forma. Particularmente, prefiro imaginar pequenos seres coloridos trabalhando em uma fábrica mágica que proporciona beleza e polimento às unhas das mulheres. E das drag queens. E de alguns supostos heterossexuais que passam base incolor e secretamente desejam o Humberto Martins.
Uma vez por semana, eu me sento diante da minha manicure, estendo minhas mãos e clamo apenas por:"Vermelho", ao que o Oráculo pergunta: "Vermelho Inveja, Vermelho Paixão, Fogo Sensual, Amor Intenso...?" Acho que o gerente do departamento de criação de nomes deve ser uma bicha muito mala. Tipo no urologista, quando perguntado sobre a coloração da sua urina: "Dourado Festivo, doutor. Com uma camada de Caramelo Queimado."
Quando eu estou feliz, afetivamente falando, minhas unhas estão sempre grandes e pintadas de vermelho. Não sei por que, é uma coisa que eu faço inconscientemente. Um processo natural. E quando estou mais ou menos feliz, minhas unhas também ficam mais ou menos legais. Continuo frequentando a manicure, mas não com o mesmo rigor. Minhas unhas ficam sempre curtas e eu troco o vermelho por tons rosados, clarinhos.
Agora, se eu não contasse o que eu estou a ponto de contar, você provavelmente nunca seria capaz de perceber quando minha vida afetiva está uma droga. Porque quando isso acontece, eu não costumo deixar transparecer - ao menos não visualmente. Não fico desleixada, largada, descabelada. Ao contrário, geralmente meu guarda-roupa recebe novas aquisições. Muitas novas aquisições.
Quando tudo vai mal, eu tendo a apurar ainda mais meu gosto por sapatos. Viro especialista em bolsas e lingerie. Uma verdadeira connoisseur da arte de gastar metade do meu salário em roupas.

Dizem que quando você está apaixonada, você fica radiante. Deve ser por isso que inventaram a base iluminadora. Para todos os outros dias do ano, em que você se sente um lixo.
Munida de roupas novas, cachos jeitosinhos e bochechas discretamente coradas de blush, fica um pouco mais difícil perceber que a minha vida afetiva está patética.
A única falha nesse conjunto todo, o elo fraco que põe a farsa inteira em risco, são as minhas unhas. Você pode passar o olho por mim e não perceber indício algum de uma vida afetiva pouco satisfatória, exceto se dedicar alguns segundos para uma rápida análise das minhas unhas.
Se estiverem curtíssimas, com cutículas por fazer e sem esmalte nenhum, já era. O resultado será dado com 99,9% de precisão: fase ruim, sem perspectiva de melhora. Porque quando tem perspectiva, a gente ainda tenta dar um jeitinho. Mas quando não tem, chuta o balde mesmo. Eu, por exemplo, ataco os cantinhos das unhas com a mesma voracidade que os supostos heterossexuais gostariam de atacar o peitoral cabeludo de Humberto Martins.
Para mim, as unhas são válvulas de escape. A única forma que eu tenho de expressar meu descontentamento com a conjuntura do Universo. Todo o resto eu deixo muito bem camuflado.
Nunca saio de casa desarrumada. Porque a Lei de Murphy é a única lei no mundo que é invariavelmente cumprida. E eu sei que o dia em que eu sair para a rua de qualquer jeito vai ser o dia em que vou subir no primeiro ônibus que passar e encontrar todos os meus ex agarrando mulheres lindas. Ou pior, namorando mulheres lindas. Todos ali, juntos, na caravana do amor. E eu igual a uma babaca, toda de qualquer jeito. Ah, não!
Algumas mulheres param de pentear os cabelos, outras param de se depilar. Eu não. Eu só deixo de fazer as unhas - o que, vamos combinar, é dos males o menor.
É claro que, tendo feito tamanha revelação, eu começo a reconsiderar a ideia de dividi-la com o resto do mundo. Não que o mundo todo esteja lendo o meu blog, não sou tão pretensiosa assim - embora tenha visto no contador IPs de Portugal e da Espanha. Me senti super Novo Mundo na época da Expansão Marítima. Briguem por mim, me dividam em duas partes obviamente desiguais.
A partir de agora, quando a gente se encontrar, a primeira coisa que você vai fazer é reparar nas minhas unhas. Se não estiverem feitas, paciência. Eu ainda estarei arrumada, com lingerie nova e base iluminadora. E ninguém, ninguém pode sentir pena de uma mulher com uma bolsa Chanel. Ainda que seja só uma boa imitação.

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MÚSICA DA SEMANA, The Calculation - Regina Spektor

terça-feira, 24 de novembro de 2009

As Sapatilhas de Pano e Os Cinco Estágios do Sofrimento na Fila


Já era meia-noite e meu pé balançava inquieto, como se estivesse soando as doze badaladas antes de eu virar abóbora. Eu estava num bar com alguns amigos, relutante quanto à oferta de ir a uma boate na Lapa.
“Mas por que não?”, alguém perguntou.
“Porque é uma BOATE na LAPA”, respondi. Tem coisas na vida que você sabe que não vão dar certo. Como mergulhar de cabeça numa cachoeira ou correr a cavalo perto de uma quadra de vôlei. E eu já fiz todas essas. Inclusive a Lapa, que acredito ter sido a pior.
“Ah, deixa de ser velha”, disse a Roberta, uma amiga que eu acharia ótima, não fosse pela mania irritante de dar bom dia para as pessoas mesmo quando já é noite. “Vai que você conhece alguém”, ela completou.
Vai que, né? Esse sempre foi meu lema. Vai que eu conheço alguém assim por acaso e acaba dando certo? Pena que até a presente data, nunca foi que.
“Não dá, eu tô usando minhas sapatilhas de pano”, argumentei, enquanto todos me olhavam impassíveis, esperando o punchline de uma piada que não existia. “Sério, gente, minhas sapatilhas de pano”, repeti, mostrando a eles o objeto em questão.
Não dá para ir a uma boate na Lapa com sapatilhas de pano. Aliás, não dá para ir a lugar nenhum na Lapa com sapatilhas de pano. A Lapa é um lugar que está sempre molhado, misteriosamente molhado, mesmo quando não chove. E, além disso, as pessoas são irracionais quando se aglomeram. “Elas podem pisar ou derramar bebida nas minhas sapatilhas de pano”, tentei explicar.
“Quanto você pagou por essas sapatilhas? Foi tão caro assim?”
“Isso não tem a ver com o preço...Roberta. Você não entende...elas...elas são de bolinha”, respondi. “E nada no mundo vai me fazer arriscar o bom estado delas para ir a uma boate na Lapa.”

CORTA PARA:
Eu e meus amigos entrando em uma boate na Lapa.
Puta que pariu, pensei. Quando foi mesmo que eu concordei em vir pra cá?

FLASHBACK – 15 MINUTOS ANTES:
Eu e meus amigos bebendo tequila.
“Arriba, abajo, al centro e adentro.” (3X)

VOLTA PARA:
Boate na Lapa.
Ah, é.

Fazia um certo tempo que eu não frequentava aquele tipo de ambiente inóspito. Quer dizer, um lugar lotado, obviamente acima da capacidade permitida ou mesmo humanamente tolerável. Quente como o inferno, poças de lama em vários trechos dos supostos dois ambientes que na verdade são a mesma coisa e se chamam Auschwitz. Aliás, pensando bem, são dois ambientes sim: o primeiro é o trem para Auschwitz, lugar apertado, abafado, onde as pessoas se locomovem rumo a um outro lugar, achando que as coisas vão melhorar, mas quando chegam lá, fodeu, é Auschwitz. E aí todas tentam pegar o trem de volta ao mesmo tempo, numa movimentação constante que dura a noite toda. Boate é isso, gente.
Eu queria ir embora assim que cheguei, mas fui sumariamente impedida. “Nada disso, você vai ter que se divertir”, disse Roberta.
Olha, eu até entendo “você vai ter que comer mais frutas e legumes”, “você vai ter que praticar algum tipo de atividade física” e até mesmo “vocês vão ter que me engolir”, exceto se isso for dito num contexto muito específico, aí eu já acho compulsório demais e desaprovo. Mas “você vai ter que se divertir”, eu simplesmente não entendo. Não faz sentido nenhum. Diversão é uma das poucas coisas que não tem como você fazer por obrigação. Senão vira exatamente o contrário.
Mas eu tentei. Olhei para todas aquelas pessoas suadas, esbarrando em mim e derramando bebida nas minhas sapatilhas de pano e pensei: essa gente não é insuportavelmente detestável, eu é que ainda não bebi o suficiente. Tendo concluído isso, bebi mais duas tequilas e parti feroz para a pista de dança.
Estava tocando James Brown, então resolvi dar uma chance. Aí tocou Prince, depois Michael Jackson e depois um cara vomitou nas minhas sapatilhas de pano e as coisas começaram a ficar bem ruins.
Decidi ir embora, acreditando que tudo ficaria melhor assim que eu deixasse aquela região infernal. Depois de muito tempo na fila do banheiro, para limpar as sapatilhas, tive que encarar a fila monstruosa para pagar e finalmente recuperar a minha liberdade, que me fora tomada no instante em que adentrei aquele lugar escabroso.
Só que a fila não andava. Não havia o que fazer além de esperar e sofrer. Foi aí que eu dei início aos cinco estágios do sofrimento...na fila:

1 – Negação

É claro que a fila vai andar, pensei. Deve ser algum tipo de pane no sistema. Pane rápida. Tenho certeza de que tem gente competente resolvendo isso e daqui a pouquinho essa fila vai começar a andar.
E as minhas sapatilhas de pano, refletia, enquanto as observava, tenho certeza de que essas manchas de vômito saem fácil. Aliás, de repente não é nem vômito. É só algum tipo de líquido pastoso e quente de coloração ocre que alguém derrubou em mim.
E essas pessoas aí entrando na minha frente não estão furando fila, elas só estão conversando com os amigos que resolveram ir embora mais cedo, repetia para mim mesma, enquanto via uma gorda tentando escamotear o meu lugar na fila. Ela usava um vestido metade preto metade branco, cuja fronteira se localizava precisamente no meio dos peitos, gerando uma espécie de ilusão de ótica que, somada à dobra lateral provocada pela bolsa atravessada no torso, dava a impressão de que ela tinha cinco tetas. Tenho certeza de que ela vai sair daí. Gordos têm senso de cidadania.

2 – Raiva

“Não é possível uma coisa dessas! Olha a palhaçada aí, segurança!”, reclamei, apontando para as pessoas que se infiltravam na fila.
“Ah, ele é seu amigo?”, questionei. “Caguei, minha filha! Na minha frente você não vai entrar!”, impus, educadamente. “Sou barraqueira mesmo, e aí, vai bater?”, provoquei, enquanto a interlocutora me ameaçava dizendo que era maior do que eu.
“Não, querida, você não é maior do que eu, você só é muito gorda. E eu sinceramente acho que você deveria parar de dizer isso para os outros como se fosse uma vantagem”, rebati.
“Preconceituosa, eu? De jeito nenhum. Não tenho nada contra os gordos, eu só torço pelos mais fracos. No caso, a comida”, encerrei, tentando memorizar a piada para escrever no blog depois.
“Aí, alguém segura a gorda que ela ficou nervosa.”

3 – Barganha

Já sei, já sei, resolvi. Eu chamo o segurança, peço para ele ir lá na frente pagar minha comanda e dou uns vinte reais por fora, concluí brilhantemente. Pena que eu só tinha dinheiro suficiente para o táxi e ia pagar a comanda com o cartão. Suborno aceita Visa Electron?, especulei. Se a minha mãe estivesse lá, ela diria que é exatamente por causa de situações assim que eu deveria andar sempre com dinheiro na carteira. Mas, por outro lado, se minha mãe realmente estivesse lá, estar ou não com dinheiro na carteira seria o menor dos meus problemas.
“Ei, amigo”, chamei o segurança. Um negão enorme de bigode e terno preto. Êêê, feliz dia do Zumbiii, cogitei dizer, mas conclui que aquela provavelmente não seria a melhor maneira de conquistar a simpatia dele.
Eu não tinha dinheiro nenhum, por isso fiz a coisa mais baixa que alguém poderia fazer.
“Então, sabe aquele programa de TV que passa sábado à noite?”, perguntei.
“A Fazenda?”, ele arriscou, completamente desinteressado.
"Não, não. No outro canal”, respondi, um tanto decepcionada.
“Eu não assisto muito TV."
“Ok, esquece. Vamos acabar com isso logo. Escolhe um peito”, propus. Mas ao vê-lo com a cara toda retorcida, decidi mudar a estratégia.
“Olha só, meu vestido é meio curto e eu vi pessoas da Uniban nessa fila. Acho melhor alguém me escoltar até lá fora.”

4 - Depressão

Tá, sério, minha vida é patética, pensei, enquanto via a gorda de cinco peitos beijar o namorado vesgo dela. Eu supus que fosse vesgo porque ele estava de frente para a gorda e um dos olhos - só um mesmo - virava quase noventa graus na minha direção. Mas de repente era só um jeito muito peculiar e sobre-humano de flertar.
De qualquer forma, ao menos eles tinham um ao outro. Eu não. Eu não tinha ninguém. Eu estava há uma hora naquela fila, sozinha, bêbada e com minhas sapatilhas de pano vomitadas. Naquele momento, minha vida parecia mesmo extremamente patética e por um segundo eu desejei ser aquela gorda pentatetas de vestido preto e branco beijando o cara vesgo. Mas só por um segundo. Depois eu bati três vezes num banquinho de madeira.

5 – Aceitação

Ah, o que é um vomitozinho no pé e uma hora de fila quando a gente está se divertindo, né não, minha gente? Diversão é isso. E tudo tem seu preço. No meu caso, o preço foi uma entrada, mais cinco tequilas, um par de sapatilhas de pano e a minha dignidade.

Semana que vem tem mais. Porque a gente TEM que se divertir.

NOTA MENTAL: Incendiar a Lapa. Arranjar novos amigos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Da Série: Psicose Épica


Tenho evidências de que haverá outros

Afetivamente falando, sempre fui meio retardada. Passei todos os anos da escola tendo romances imaginários com garotos que provavelmente nunca trocaram mais de três palavras comigo (sendo que uma delas devia ser meu apelido, que eu odiava).
Meu primeiro beijo foi aos quinze, um atraso de pelo menos três anos em relação a quase todas as minhas amigas. Incluindo aquela dentucinha de aparelho que andava curvada para frente e que eu nunca achei que fosse ficar com alguém antes de mim.
Aos quinze anos, eu dava início a minha vida afetiva no mundo real, fora da minha cabeça e das fantasias meticulosamente arquitetadas ao longo dos anos.
O rapaz em questão era irmão da minha melhor amiga da época, e se chamava... bem, vamos chamá-lo de Evidência nº1.

Evidência nº1
Oito anos mais velho que eu. Foi, sem dúvida, meu primeiro amor. Ou melhor, minha primeira fixação. Fui secretamente apaixonada pelo rapaz por cerca de um ano. Passava finais de semana inteiros na casa dele, em frente à praia. Era uma cidade pequena e tudo fechava cedo. Então pássavamos a noite jogando cartas, vendo filmes ou só conversando. Várias vezes fiquei sozinha com ele enquanto todos na casa dormiam. Mas nada acontecia, nunca. E quando algo estava bem próximo de acontecer, quando não restava mais nada além de um grande silêncio, daqueles bem convidativos, que praticamente equivalem a uma placa em neon dizendo "Beija! Beija!", quando tudo estava a meu favor, eu simplesmente entrava em pânico e fugia. (Fugia no sentido figurado, tá? Eu juro que não saía correndo pela casa gritando feito uma pudica molestada.) Eu inventava uma desculpa qualquer e ia embora.
Mas numa certa noite aconteceu. Meu primeiro beijo. Lembro como se fosse hoje, foi um dia 12 de junho. Eu estava nervosa, tinha medo de que tudo que acontecesse dali para frente fosse aquém das minhas expectativas. Confrontar a realidade implicava na iminência de destruir o que já era perfeito nas minhas fantasias.
Não deu outra. Na semana seguinte, quando cheguei na casa da minha amiga, lá estava ele com uma garota. Não era exatamente bonita, mas também não posso dizer que era feia. Era uma garota. Outra que não eu.
Mais tarde ele disse que gostava muito de mim, mas não queria se envolver com ninguém - frase que eu viria a ouvir mais algumas vezes ao longo da minha vida afetiva.
Arrasada e sem nada para fazer nos finais de semana seguintes, resolvi me inscrever num curso que iria ocorrer aos sábados e domingos, durante dois meses. Foi lá que conheci aquele que chamarei de Evidência nº2.

Evidência nº2
Depois de um ano completamente obcecada pelo irmão da minha melhor amiga, jamais pensei que iria conhecer alguém novo tão rápido. E foi muito rápido. Depois do primeiro fim de semana com ele, eu tinha certeza de que estava fodida. De novo.
Em pouquíssimo tempo, já havia mudado o objeto das minhas fantasias. Ao término daqueles dois meses de curso, a Evidência nº2 passou a ocupar de maneira plena o espaço deixado pelo seu antecessor. Só que, mais uma vez, platonicamente.
Lembro de estar numa festinha com ele e milhões de placas em neon piscando "Beija logo, caralho". E nada. Primeiro porque eu não calava a boca. Não sei se vocês sabem, mas eu tenho uma habilidade extraordinária de tagarelar por horas. Hoje em dia, eu uso esse know-how para enrolar os caras durante primeiros encontros desinteressantes. Só que, na época, era uma defesa. Eu morria de medo do que poderia acontecer quando tudo o que eu havia imaginado virasse realidade. Eu preferia que não virasse. No fundo, eu sabia que os romances inventados na minha cabeça eram insuperáveis.
Só fui reencontrar a Evidência nº2 alguns meses depois. Mas, àquela altura, ele não estava mais sozinho. Carregava uma baixinha de cabelos encaracolados a tiracolo. Bonita. Quer dizer, inha. Bonitinha. Era tudo que ele precisava para se tornar minha nova obsessão: ser inatingível.
De qualquer forma, nos meses que se seguiram, passei a explorar novos horizontes. Coincidentemente, foi na mesma época em que abriram umas boates novas na cidade e eu comecei a experimentar bebidas com teor alcóolico mais relevante.
Quando eu conhecia alguém nessas circunstâncias, não havia nenhum tipo de expectativa. Era tudo mais leve e fácil. E acabava ali. Tanto que, para garantir que o caso não se estendesse, eu fazia questão de dar o número errado. Ou desligar o celular no dia seguinte. Qualquer coisa que evitasse uma aproximação maior. Vez por outra, eu esbarrava com a Evidência nº2.
Levou dois anos para que algo finalmente acontecesse entre nós. Estava esperando um táxi em frente a um teatro quando ele parou ao meu lado e perguntou:
- Quando é que você vai sair comigo?
Congelei por alguns segundos. Com o olhar ainda fixo na parede descascada da casa em frente, eu respondi:
- Se você não estiver namorando a baixinha, amanhã - concluí, sentindo meu rosto ficar cada vez mais quente.
- Eu não estou namorando ninguém - ele rebateu, sorrindo.
Virei meu rosto uns trinta graus em direção a ele, só para conseguir vê-lo. Sorri de volta. Mas antes que tivesse chance de tomar qualquer iniciativa, meu táxi chegou.
- Me liga - eu disse, me dirigindo ao carro.
- Eu não tenho seu telefone - ele respondeu, de longe.
Então gritei para ele o número. O número errado. E entrei no táxi, confusa com o que havia feito.
- Para onde a gente vai? - o motorista perguntou, enquanto andava a uns 10km/h.
Num impulso incontrolável, abri a porta do carro e andei depressa em direção à Evidência nº2. Olhei nos olhos dele, respirei fundo e dei o número certo. Depois voltei para o táxi e disse para onde a gente ia.
No dia seguinte, a Evidência nº2 me ligou e finalmente tivemos nosso primeiro encontro. Mas quando ele me levou de volta para casa, tive uma sensação estranha de que não o veria de novo tão cedo. Achei que fosse paranóia e deixei pra lá.
Só que eu estava certa e o cara sumiu do mapa. Só fui saber dele muito tempo depois. Parece que ele tinha entrado em algum tipo de crise, queria trancar a faculdade, se mudar e o caralho. Quando reapareceu, ele disse que gostava muito de mim, mas não podia prometer nada naquele momento.
Durante quase dois anos, nos víamos com frequencia irregular, às vezes com intervalos curtos e muitas vezes com intervalos maiores, que chegavam a durar meses.
As coisas só ficaram diferentes quando ele soube que eu iria me mudar da cidade. Passamos a nos ver todos os dias, dormíamos juntos quase todas as noites, ficamos inseparáveis.
Faltando poucos dias para eu ir embora, estávamos no meu quarto conversando sobre algum assunto bobo. Ri de alguma coisa que ele disse, levantei e fui até a cozinha buscar um pedaço de bolo. Quando voltei, tive uma espécie de epifania ao vê-lo deitado na minha cama. Foi ali, naquele instante, que eu soube que haveria outros depois dele.
E houve.

Evidência nº3
Ficamos amigos muito rápido. Mesmo senso de humor, mesmo gosto musical e uma diferença de altura de quase 10cm, mas eu tentava não focar muito nisso. Conversávamos por horas sobre qualquer assunto e nem sentíamos o tempo passar.
Quando nós ficamos pela primeira vez, ele já havia me contado sobre pegar rapazes. E não, eu não estou falando daquele penteado escroto. Ele realmente ficava com homens. Esporadicamente.
Já estávamos super próximos quando ele foi passar as férias sozinho em outra cidade. Me peguei fazendo vários planos para a volta dele, quando meu telefone tocou. Era ele, todo serelepe, contando que tinha conhecido um cara.
Como expliquei, nós éramos, antes de tudo, muito amigos. E eu era uma das únicas que sabia do segredinho dele. Não havia muita gente para quem ele pudesse ligar e contar a novidade. Hoje em dia, eu lembro disso e acho engraçado. Apesar da Evidência nº3 nunca ter dado pinta de veado, ligar para a melhor amiga só para contar que conheceu um cara é a coisa mais mulherzinha do universo. Eu devia ter desencanado ali.
Em vez disso, continuei fixada no rapaz por vários e vários meses. Porque a gente se dava tão bem, era tudo tão fácil, tão confortável. E o beijo dele, meu deus. Era o melhor até então (e como eu sei que a Evidência nº3 vai ler esse texto e começar a se achar, eu enfatizo: o melhor até então).
Foi difícil abrir mão dele com tantos indícios de que daríamos certo. Exceto pelo fato de que ele pegava rapazes. Cada vez mais frequentemente. E eu, na verdade, nunca concordei muito com o conceito de bi-curioso. Pelo menos não para homens. Não existe dar a bunda só de curiosidade. Não é como experimentar uma cozinha exótica. Tipo, "humm, gostei, o que é isso, curry?". Não, cara! É a sua bunda! Para alguém chegar perto dela, você tem que querer muito. Não rola bancar o Pedro Bial e dar só uma espiadinha.
Por isso eu acabei superando a Evidência nº3 . Uma coisa é o cara dizer que gosta muito de você, mas não quer ser envolver, ponto. Faz você questionar uma porção de coisas, inclusive a si mesma, achando que o problema é com você. Outra coisa é o cara dizer que gosta muito de você, mas prefere homens. É totalmente diferente. Ser gay é um argumento inquestionável.
***
Depois dele, fiquei quase dois anos em um limbo emocional. Não por coincidência, foi a época mais boêmia da minha vida. Saía quase toda noite, conhecia toda sorte de rapazes aleatórios e tinha pelo menos um primeiro encontro por semana. Esses, quase nunca passavam do terceiro e, quando passavam, me cansavam em pouquíssimo tempo. Vivi uma espécie de apatia sentimental e tédio profundo. Ninguém parecia capaz de me tirar daquele estado catatônico.
Até surgir a próxima evidência e bagunçar tudo.

Evidência nº4
Estava tudo uma merda. Não achava trabalho na minha área e minha vida profissional era uma piada. Passei o final do ano avaliando a qualidade dos picolés nos pontos de venda da Kibon. Nada contra quem sempre sonhou em avaliar a qualidade dos picolés nos pontos de venda da Kibon, mas tudo o que eu queria naquele Natal era um trabalho que me pagasse para escrever. E eu não escrevia há séculos. Faltava inspiração e tudo o que eu produzia era uma série de textos ruins e inacabados.
Foi em janeiro do ano seguinte que eu conheci a Evidência nº4. Na verdade, eu já conhecia o sujeito. Ele era muito amigo da minha melhor amiga. Era tão amigo, mas tão amigo, que eu poderia até dizer que eles eram primos. Ok, eles são primos. Droga, eu jurei pra mim mesma que ia mudar alguns elementos para não explanar demais a história. Enfim, agora foi. Desculpa, Arthur. Droga, fiz de novo!
Quando comecei a sair com a Evidência nº4, eu não estava nem aí para nada. Há muito tempo que não me interessava de verdade por ninguém e só saía com homens com quem eu não me importava. Depois que ficamos pela primeira vez, comecei a agir como vinha agindo nos últimos dois anos. Era evasiva e tentava dar o perdido sem parecer que estava dando um fora. Exemplo típico: o cara manda um torpedo dizendo "Quer fazer alguma coisa hoje?" e você responde que não pode. E nem vai poder nos próximos dias porque está - ai, que clichê - super enrolada com várias coisas.
Só que a Evidência nº4 não caiu nesse truquezinho barato. Todos os homens até então teriam engolido essa, mas ele foi sagaz e rebateu com "Vem cá, isso quer dizer que você não pode sair, não quer sair ou não vai sair comigo?" e me desarmou completamente. Saí com ele no mesmo dia.
Depois do terceiro encontro, eu já sabia que ia me foder. De novo. Sabe aquela sensação de que as coisas não vão dar certo? Uma vozinha miserável que sussurra, "sai fora enquanto você consegue". Pois é. Se você nunca ouviu essa voz, parabéns, você não é esquizofrênico. Eu ouvi e resolvi ignorá-la.
Poucos meses depois, quando eu já estava completamente caída pela Evidência nº4, o tempo começou a mudar. O céu ficou encoberto e o vento fazia as janelas baterem, tornando necessário fechá-las de uma vez. "Gosto muito de você", ele disse, enquanto eu já antecipava o que estava por vir. Já não conseguia deixar de associar alguém gostar muito de mim com alguém estar a ponto de me dar um fora. "Gosto muito de você, mas vou tentar resolver as coisas com a minha ex".
Ai.
Acho que de todos os foras, aquele foi o que mais me abalou. Porque eu vinha de um longo período de anestesia afetiva. Conhecer a Evidência nº4 foi como tomar uma injeção de epinefrina à la Pulp Fiction. De uma vez só, eu voltei a acreditar em todas as fantasias que eu alimentava anos atrás e que há tempos havia deixado de lado. E, também de uma vez só, em pleno exercício dessas fantasias, eu me vi obrigada a reprimir todo aquele sentimento e guardá-lo de volta em algum lugar obscuro onde ninguém nunca mais haveria de mexer.
***
Ao longo daquele ano, eu tive certeza de que todos os livros de autoajuda mentiam para as pessoas. Ok, eu já sabia disso. Mas naquele momento não restava nenhuma dúvida. Todo aquele papo sobre o mundo estar cheio de gente interessante é mentira. Uma das mentiras mais cruéis que alguém pode contar. O mar não está cheio de peixe. O mar é a Baía de Guanabara! Tá cheio de porcaria e óleo!
Cheguei a ensaiar um casinho ou outro, mas nada muito relevante. A reviravolta só se deu no ano seguinte, com o reaparecimento da Evidência nº4.

Evidência nº4 - o retorno
Foi tipo um reset no sistema. Começou tudo outra vez, do ínicio. Em janeiro, no verão, pouco antes do carnaval. Déjà vu total. E paranóica do jeito que eu sou, já esperava que tudo acontecesse como no ano anterior. Nesse caso, o deadline seria no final de março, antes do meu aniversário, no dia 27.
Mas me enganei. O deadline foi exatamente um dia depois do previsto. Dia 28 de março. Foi quando tudo começou a dar errado. Porque depois desse dia, ele passou a dar sinais claros de que não queria nenhum tipo de envolvimento mais sério. Passava vários dias sem ligar ou mandar mensagens, quase nunca estava livre na sexta ou no sábado e nunca me via mais de uma vez por semana. Praticamente um aviso de "mantenha distância" ambulante. Mas eu escolhi continuar. Poxa, eu sou tão legal. Vai que, né?
Mas não. Depois de março, foi só ladeira abaixo. Especialmente depois que eu perguntei mais do que devia e ouvi o que não queria. Sim, ele estava comendo outras mulheres. E não, nada indicava que ele pretendia mudar de ideia quanto a isso.
Merda. Estava fodida. Refodida.
Devia ter ouvido aquela vozinha que me disse para sair fora enquanto eu conseguia. Porque, àquela altura, eu já não conseguia mais. Mesmo depois de ouvir várias vezes que ele gostava muito de mim, mas. Tem sempre um mas no meio do meu caminho. Ele gostava muito de mim, mas não estava pronto para se envolver. Clássico. Se fosse futebol, seria um Fla-Flu.
Continuei saindo com a Evidência nº4 por mais alguns meses até cansar daquela rotina de sair com ele/ esquecer que na verdade ele não queria ficar comigo/ dar para ele/ lembrar que na verdade ele não queria ficar comigo/ me sentir péssima/ parar de ligar/ ligar/ sair com ele.
Para garantir que eu não cairia em tentação e para livrar-me do mal, amém, apaguei a Evidência nº4 do meu messenger. E do meu celular, apesar de ainda saber o número dele de cor.
Deve ter funcionado porque, em menos de um mês, do nada, eis que surge uma nova evidência.

Evidência nº5
Esse foi o mais inesperado. Mesmo. Primeiro porque eu não estava procurando. E, ainda que estivesse, minha busca teria outros termos - certamente haveria um rigor maior no quesito altura.
Foi a primeira vez que eu nem precisei sair de casa para conhecer alguém. Veio por fibra ótica, via internet banda larga, numa troca de e-mails que normalmente não teria passado do segundo ou do terceiro, no máximo.
A coisa evoluiu tão rápido que, quando eu me dei conta, já estava fodida. Dessa vez não deu nem tempo de pensar antes. A vozinha sequer teve a chance de anunciar o fim inevitável a que todos os meus relacionamentos até então se encaminharam. "Gosto muito de você, mas".

Eu costumava pensar que, com o tempo e as porradas, eu iria me fechar cada vez mais. Mas eu me enganei. Porque as evidências só provam o contrário. Cada vez menos eu me sinto apegada às minhas fantasias e cada vez mais eu me vejo aberta para todas as possibilidades do mundo real. Eu estou...como se diz... crescendo. Aliás, crescendo não que eu já tenho 1,78cm e tá de bom tamanho.
Tenho evidências de que haverá outros. E depois dos outros, mais outros. E, numa dessas, em vez daquele mas xexelento, alguém vai dizer: "Gosto muito de você e, por isso mesmo, é óbvio que eu não vou a lugar nenhum. Agora para com essas bobagens e volta logo pra cama".

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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Da Série: Rapidinhas da Psicótica


Então ele me perguntou se a gente iria se ver.
Creio que nenhuma resposta seria melhor do que a verdade: "Olha, acabei de comprar um vestido, um conjunto de lingerie e preciso de alguma atividade física que me faça queimar as calorias dos dois brigadeiros que eu comi no intervalo entre uma compra e outra. Então... espero que sim(!!!)".
Naturalmente, respondi apenas um contido e casual "sim, sim", enquanto (re)avaliava a real necessidade de um retoque na depilação.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Psicose em Destak


Queria agradecer à leitora Ana Amélia Santos, que indicou o "Adorável Psicose" para o Jornal Destak. Em retribuição, irei persegui-la durante sete dias e escrever um texto explanando todos os aspectos psicóticos da sua vida.

Sacanagem.

Mas eu pago um chope.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Velha Demais


Tirando minha tia avó e alguns pedreiros, ninguém nunca me chamou de "meu amor". E tenho certeza de que nunca disse o mesmo para alguém que não estivesse furando o meu lugar na fila: "Meu amor, cai fora daí". Ou alguém que não fosse uma bicha cabeleireira: "Corte joãozinho? Mas nem morta, meu amor". Ou se não fosse para argumentar com uma mulher muito chata: "Meu amor, olha só, pra começar você é gorda".
Vou fazer vinte e cinco anos e nunca tive um relacionamento de verdade. Talvez eu seja nova demais para me preocupar com isso. Em compensação, já tenho idade suficiente para querer ser velha em alguns momentos.
Como quando alguém me chama para ir ver Los Hermanos. "Já tô velha demais para essas coisas", eu respondo. Não que antes eu tivesse alguma vontade de ir, mas agora eu adquiri o passe. Finalmente, tenho o direito de dizer "não".
Boate muito cheia, sem lugar para as pessoas se mexerem: "Tô velha para essas coisas, gente". Aniversário da pessoa mais insuportável do trabalho na quarta-feira à noite: "Desculpa, mas é que eu realmente tô velha demais para essas coisas".
Acho que essa é uma das grandes vantagens de ficar velho. Quanto mais o tempo passa, menos você se sente compelido a fazer o que não quer. E, de quebra, ainda ganha a desculpa perfeita. "Estou velho demais" é um argumento inquestionável. A pessoa não vai discutir com alguém que está velho demais. Pelo contrário, isso é quase como um "respeite meus cabelos brancos". Só que, nesse caso, tá mais para "respeite todos aqueles anos em que eu saía peregrinando de bar em bar, depois ia a uma boate, dançava a madrugada toda e só voltava pra casa depois das seis da manhã".
O "já tô velha demais pra isso" serve para todo tipo de situação. Inclusive para a vida afetiva. Porque chega uma hora em que você simplesmente não tem mais paciência para os joguinhos de outrora. Existe um momento, muito nítido, em que você se dá conta de que está mesmo velha demais para não fazer o que tem vontade de fazer. Ou vice-versa.
Vou fazer vinte e cinco anos e nunca tive um relacionamento de verdade. Tive desencontros, equívocos, mal-entendidos. Relacionamentos platônicos, impossíveis, imaginários. Todos eles. Mas reais e adultos, não faço ideia de como sejam.
Não sei por que isso acontece. Talvez porque eu sempre foque as pessoas erradas. Ou talvez porque eu morra de medo de precisar de alguém. De ficar vulnerável e quebrar a cara.
Seja como for, de uma coisa eu tenho certeza. Apesar de ser muito nova para me preocupar com isso, eu já estou velha demais para não admitir que seria legal tentar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Resoluções de Dia de Finados


- Correr na praia
- Andar na praia
- Ir à praia
- Comprar biquíni
- Voltar a fazer terapia
- Comprar sapatos
- Parar de sair com homens errados
- Parar de sair com homens
- Virar lésbica
- Virar matadora de vampiras lésbicas
- Fazer dieta
- Comprar chocolate e vinho
- Correr na praia

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Como se tornar uma psicótica obsessivo-compulsiva


1 - Pense no cara com quem você está saindo;
2 - Considere a hipótese desse cara estar saindo com outra;
3 - Presuma que esse cara está saindo com outra;
4 - Tenha certeza absoluta de que esse cara está saindo com outra;
5 - Fique absurdamente revoltada com o fato desse cara estar saindo com outra e ligue para ele, alegando que já sabe de tudo e não quer mais saber dessa palhaçada.

(Tempo de duração do processo: 5 a 10 minutos)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

"One More Time With Feeling"


Se os corações fossem pequenas casas, a cada pessoa seria destinado um cômodo.
A grande maioria jamais passaria da cozinha. Ficaria por ali, perambulando, à espera de um convite para a disputada sala de estar, onde tudo supostamente estaria acontecendo.
Enquanto isso, algumas pessoas seriam encaminhadas à área de serviço, onde tentariam colocar as coisas em ordem. Iriam lavar, passar, limpar. Tudo para agradar e, quem sabe, ser recompensadas. Mas, mesmo que o dono da casa as tratasse com carinho, no fundo, elas saberiam o seu lugar.
Os que forçassem a entrada seriam mandados diretamente para o banheiro, onde ficariam presos até que o proprietário decidisse dar ou não a descarga final.
Aos poucos sortudos, caberiam os quartos. No plural, porque o dono da casa saberia que, ao longo da vida, iria receber mais de um hóspede importante.
Alguns seriam jogados no lixo, é triste admitir. E depois seriam levados para fora de casa, em grandes sacos pretos. Outros até trocariam de cômodo. Dentre os festeiros da sala, um deles poderia passar a noite no quarto. Talvez mais de uma. E, talvez, depois de várias noites, esse mesmo indivíduo poderia acabar indo embora pela descarga.
Não existem regras definidas para o funcionamento dessa pequena casa. Uma mesma pessoa pode ocupar diferentes cômodos em diferentes corações. Você pode estar fadado à área de serviço de um, mas também pode ocupar a suíte master de outro.
Todos nós, se já não estivemos, ainda estaremos em cada um desses lugares e experimentaremos a frustração de não nos sentirmos devidamente alocados. Mas, com sorte, também saberemos como é bom ser escolhido para um cantinho quente e protegido da casa.
De todo jeito, a maneira mais surpreendente de se conquistar um coração é quando você entra pela área de serviço, de mansinho. Sem muito alarde, você chega até a festa da sala e, pouco a pouco, acaba se destacando entre os demais convidados. Quando menos espera, sua escova de dente já está no banheiro. Abrir a porta do quarto agora é uma mera formalidade. Porque, a essa altura, a casa inteira também é sua.

Texto inspirado em conversa com os amigos psicóticos Diogo e Carol, e catalisado por uma ligação telefônica.

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(Eet - Regina Spektor)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Da Série: Piores Encontros do Universo


1 - O Bundudo

Não via o sujeito há meses. Talvez mais de um ano. Lembrava dele como o cara bonitinho, inteligente e um pouquinho arrogante, mas não muito. Só o suficiente para me provocar. Já havia saído com ele em outras ocasiões mas, por alguma razão, paramos de nos ver. De qualquer forma, eu estava bastante ansiosa.
Quando cheguei ao bar, ele já estava sentado, me esperando. Levantou-se para me cumprimentar, mas eu estava tão daquele meu jeito tenso-nervoso-histriônico que nem tive a oportunidade de dar uma checada no rapaz. Apenas me sentei diante dele e desatei a falar.
Já estava me acalmando e quase não sentia mais meu rosto queimar, provavelmente por estar super vermelho, quando ele se levantou novamente, dessa vez para ir ao banheiro. Foi aí que eu vi. Aquela coisa enorme, desproporcional, monstruosa, olhando pra mim, tentando me intimidar. A bunda assassina.
- Já volto - ele disse. Mas por um segundo achei que tinha sido a bunda.
- Tá bom - respondi, com o sorriso mais difícil que já me forcei a dar.
Estava petrificada. Que caralhos? Ele não era gordo, estava exatamente como eu me lembrava. Gatinho! De onde tinha vindo aquele anexo? Aquele irmão siamês em forma de nádegas?
Peguei meu celular no instante em que o vi fechar a porta do toalete masculino.
- Que caralhos? - reclamei com uma amiga - A única vantagem é que se ele me der um fora, a imagem dele indo embora vai me lembrar do lado bom de estar terminando.
Ao vê-lo voltando para a mesa, tentei disfarçar:
- Não, eu não estou interessada em fazer um seguro de vida. Eu sinceramente acredito que sou imortal - e desliguei. - Telemarketing - disse, justificando a ligação.
- No sábado à noite?
- Pois é. Um absurdo.
- Eles são uns bundões mesmo.
Segurar o riso agora foi tão dificil quanto forçar aquele sorriso alguns parágrafos acima.
- É, eles são...
Silêncio.
- Olha, Natalia, não precisa disfarçar. Eu sei o que você tá pensando.
- Sabe?
- Sei. Você provavelmente está se perguntando o que caralhos aconteceu com a minha...
Ai meu deus.
E, do nada, eu juro pra vocês que todo mundo no bar começou a bater nas mesas com os punhos fechados gritando: Bunda! Bunda! Bunda!
- ...namorada - ele completou, dando fim a minha breve alucinação.
- Oi? - perguntei, confusa.
- Você sabe, eu comecei a namorar no ano passado, por isso eu e você paramos de sair.
- Ahh. Claro. Era isso que eu estava me perguntando - disse, sem conseguir olhar nos olhos dele.
- A gente terminou há duas semanas. Não tava mais dando certo. Eu mudei muito. De uns tempos pra cá, eu tenho sentido essa coisa crescendo dentro de mim, sabe, uma coisa pesada, uma...
De novo não...
- Bunda! Bunda! Bunda! - gritavam os outros clientes, batendo na mesa em uníssono, enquanto eu respirava fundo, tentando me concentrar na conversa.
- ... sensação de que o tempo está passando e eu estou deixando de viver as coisas, sabe?
- Sei, super chato quando essas coisas acontecem. Escuta, você quer pedir alguma coisa? Uísque, tequila? Absinto?
- Nossa, alguém tá animada hoje, hein? - ele comentou, fazendo um gesto para o garçom se aproximar.
- Sim, qual é o pedido?
- Por mim, eu dava uma beliscada em alguma coisa - ele disse. - O que você recomenda?
- Que tal uma bunda, senhor? - o garçom sugeriu.
- Como é que é? - questionei, um pouco ofendida.
- Bunda - respondeu o bundudo, me mostrando o cardápio.
Minha vista embaçou e comecei a sentir uma tontura. No cardápio inteiro estava escrito Bunda, Bunda, Bunda. Olhei para o garçom e ele perguntou, em tom normal:
- Bunda bunda bunda bunda?
Olhei para o bonitinho bundudo e ele dizia, tranquilamente:
- Bunda, bunda, bunda...
De repente, todos a minha volta estavam falando em bundês. Conversavam entre si, riam, trocavam declarações. Não importava o assunto, a única palavra que eles pronunciavam era bunda.
Pus as mãos sobre a cabeça e respirei fundo novamente, esperando que aquilo passasse. Mas não adiantou. Impaciente, tentei gritar "basta", mas o que saiu foi:
- Bunda!
Em pânico, levantei da cadeira e continuei a falar, na esperança de reassumir o controle da situação:
- Bunda bunda bunda bunda bunda bunda...
Quando me dei conta, todos no bar estavam em silêncio, olhando para mim. Imediatamente parei o que estava fazendo, olhei para o meu decote e arrisquei:
- Peito?
Por alguma razão, depois desse encontro, o bundudo nunca mais me ligou.

sábado, 24 de outubro de 2009

Matemática Psicótica


Se existisse uma escola para meninas superpsicóticas, acho que as aulas seriam mais ou menos assim:
- Meninas - diz a professora de Matemática, em tom sisudo -, se vocês tiveram 8 encontros com 1 rapaz, sendo que 2 vezes vocês dormiram com ele, quantas horas vocês passaram juntos?
As alunas, todas impecavelmente uniformizadas, fariam os cálculos em seus cadernos ou folhas de fichário, em silêncio, concentradíssimas. E as folhas seriam de papel pautado simples, sem nenhum tipo de distração visual fofinha, como corações, estrelinhas ou a cara da Hello Kitty.
Em poucos minutos, duas alunas levantariam a mão ao mesmo tempo, disputando pelo direito de dar a resposta.
- Sim, Psicótica#7? - decide a professora, deixando a Psicótica#6 bastante impaciente.
- Considerando que cada encontro teve duração média de 6 horas e que desse total deve ser subtraído as horas de sono das noites em que os dois dormiram juntos, além da quantidade de tempo que cada um utilizou para ir ao banheiro, a resposta certa é, pelos meus cálculos,... 36 horas, 14 minutos e 28 segundos.
- Você concorda, Psicótica#6? - questiona a professora.
- Creio que a colega se equivocou ao incluir todas as idas ao banheiro em uma mesma categoria. Ela sabe muito bem que existem vários tipos de ida ao banheiro e que elas variam desde uma vontade de fazer xixi até uma emergência com o rímel que não era à prova d'água. E mesmo quando se trata de um xixi rápido, a quantidade de tempo empregado para desempenhar a atividade pode variar em função do look escolhido na ocasião. Se a psicótica estiver de minissaia, por exemplo, é uma coisa. Agora, se ela estiver de meia-calça, o processo é bem mais complicado...
- Uhhhh... - a turma reage, impressionada com a precisão dos cálculos.
- E isso se estivermos considerando apenas a presença física - ela prossegue -, caso contrário, também devemos subtrair a quantidade de minutos que cada um gastou ao celular. Ou pensou em outras pessoas durante a conversa, por exemplo...
A Psicótica#13 levanta o braço e contrai os músculos do rosto, como se estivesse muito ansiosa para falar o que tinha para falar.
- Sim? - a professora lhe concede a palavra.
- Pode ser que haja mais uma variante no cálculo. Por exemplo, eu tenho uma amiga...
- Iihhhh... - a turma reage novamente, dessa vez em tom jocoso.
- Não, sério, gente. Eu tenho uma amiga. Ela está saindo com um cara... enfim, ele acabou de sair de um relacionamento...
- Iiiihhhh...
- Será que esse fator pode diminuir o coeficiente de presença e acabar interferindo no resultado da equação? Se o rapaz não estiver totalmente envolvido com a garota, só estiver 60 ou 70% presente, esse percentual não deveria ser aplicado no total de horas que os dois passaram juntos?
- Então você está dizendo - pensa a professora em voz alta - que se o rapaz tiver problemas em se envolver 100% com a garota, o tempo que eles passaram juntos terá sido menor em função do déficit do coeficiente de presença de espírito?
As psicóticas pensam.
- Exatamente - conclui a Psicótica#13.
- Brilhante - diz a professora, aplaudindo, emocionada. - Vocês são as melhores alunas de Matemática Psicótica que esta escola já teve.
A turma toda aplaude junto.
- E agora o dever de casa - a professora anuncia, escrevendo no quadro negro. - Se somarmos o tempo das ligações com o número de caracteres das mensagens de texto trocadas, poderemos tornar essa equação equivalente a quantas horas na casa dele?
As meninas superpsicóticas anotam, intrigadas.
- Pensem nisso. E tenham um ótimo final de semana!

Texto inspirado em conversa com a psicótica#2, Carol Martins.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O Ministério da Psicose Adverte


Após a realização de uma série de pesquisas científicas, finalmente foi comprovado que o número de vezes que uma mulher psicótica repete "eu não vou dar hoje" é diretamente proporcional à probabilidade de ela dar nesse dia.
Isso ocorre porque, enquanto o lado esquerdo do cérebro, responsável pelo pensamento racional, envia um comando como "não se esqueça de ir ao supermercado", o lado direito, responsável pela emoção e pela total falta de vergonha na cara, apenas registra a informação principal, abstraindo a negação da frase.
Dessa forma, as chances da pessoa em questão acabar se esquecendo de ir ao supermercado são consideráveis.
O que significa que, se uma mulher afirmar uma única vez que não vai dar em um determinado dia, no caso hoje, é muito provável que ela realmente não dê.
Agora, se você ouvir essa mesma mulher dizendo: "Ah, eu não vou dar hoje não. Mas não dou mesmo. De jeito nenhum que eu vou dar hoje. Não, não, não. Hoje eu não dou", a probabilidade de ela estar falando isso enquanto tira a roupa é de 98,4%.

Esta pesquisa é total e psicoticamente arbitrária. Qualquer semelhança com a realidade... é porque tu deu hoje, né, safada!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Profecias da Psicótica


Achei um e-mail interessante na minha caixa de rascunho. Tão antigo, nem lembrava mais dele.
Dizia apenas:
"Dia desses eu vou parar de escrever sobre você. E aí você vai sentir saudades."
"Ou não."

Estranho pensar que esse dia chegou.
(...)
Mais estranho ainda é pensar que eu incorporei o caboclo Nostradamus Caetanus para escrever o e-mail. Imagina se o Caetano Veloso resolvesse ser vidente. "Dois aviões vão colidir no espaço aéreo brasileiro. Ou não". "Haverá um ataque terrorista a dois edifícios comerciais em Nova York. Ou não". "Duzentas e cinquenta pessoas vão morrer de ataque cardíaco amanhã no caminho para o trabalho. Ou não". "O Junior do Sandy&Junior é gay. (Silêncio)".

video
NO HARD FEELINGS, só estava procurando um pretexto para postar essa música. (Early in the Morning - Buddy Holly).

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Guia Prático de Como Se Tornar a Regina Duarte


Passo a passo:

1 - Tenha medo;
2 - Faça cara de quem tem medo;
3 - Junte as mãos em frente ao peito;
4 - Incline o rosto 45º à direita;
5 - Troque de bebê com a Eduarda.
 
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