natalia

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Batendo Portas


Não sei quanto a você, mas eu bato portas. E eu não digo isso de maneira metafórica. Eu realmente sinto um prazer sadomasoquista em adentrar um recinto, em meio a uma discussão calorosa, e bater a porta na cara do meu interlocutor. Geralmente quando estou perdendo essa mesma discussão. Caso contrário, eu jamais deixaria o outro recinto. Porque se tem uma coisa que eu gosto mais do que bater portas – e olha que eu realmente gosto de bater uma portinha –, essa coisa é ganhar.
Na verdade, não é que eu goste tanto assim de ganhar. Ok, eu gosto de ganhar. Você gosta de ganhar. Todo mundo gosta de ganhar. Isso é óbvio. Mas o fato é que eu ligo muito menos para ganhar do que eu ligo para não perder. Eu realmente detesto perder. Eu odeio perder. Eu odeio muitas coisas nessa vida, confesso. Mas perder é algo inadmissível, insuportável, indigesto.
Quando eu era pequena – ok, quando era criança, porque pequena eu nunca fui –, e jogava War com os coleguinhas, fazia algo de que não me orgulho muito. Eu não sei se você já jogou ou se lembra de como era, mas quando uma pessoa começa a perder no War, dificilmente consegue se recuperar. Vai perdendo território atrás de território, até não sobrar mais nada. Até a humilhação completa. E quando eu percebia que estava sem saída, em vez de aceitar minha derrota com classe e elegância, eu me levantava da mesa, bagunçava o tabuleiro todo e me retirava do recinto. Provavelmente batendo alguma porta no caminho.
Faz tempo que não jogo War, mas minha postura diante das adversidades permanece muito semelhante. Por exemplo, digamos que eu estivesse saindo com um cara ótimo que dizia não estar pronto para um relacionamento, porém, dias depois mudou o status no Facebook para fulano-está-em-um-relacionamento. No caso, com outra. Por mais que eu forçasse um sorriso polido quando o encontrasse por aí, um sorriso semelhante à sequela de um derrame, por dentro eu estaria me levantando da mesa, bagunçando o tabuleiro do War e batendo todas as portas da casa.
Mas já faz algum tempo que não saio com caras-ótimos-que-na-verdade-são-sempre-péssimos. Há algum tempo eu moro com um cara ótimo que continua sendo ótimo. O que é ótimo! As únicas discussões que tivemos até hoje foram por razões estúpidas e sempre iniciadas por mim, que sofro de um vício incontrolável de bater portas.
Sim, meu nome é Natalia e eu sou uma batedora de portas. Poderia ser pior. Eu poderia estar matando, eu poderia estar rouband...ok, bater portas é ridículo. Eu sei que é ridículo, eu compreendo racionalmente o quão infantil é abandonar um cômodo da sua residência e entrar em outro ao som de uma batida de porta. E a coisa toda fica muito mais ridícula quando se mora em um sala e quarto de quarenta metros quadrados. Quer dizer, não tem muito para onde ir, nem muitas portas para se bater. 
Todo o drama envolvido no batimento de uma porta consiste no silêncio e no desconforto que se seguem após a batida. Mas quando o único banheiro da casa está no cômodo onde a batedora de portas se encontra, o drama acaba tendo que ser encurtado em razão de necessidades fisiológicas. A menos, é claro, que o interlocutor fosse ainda mais infantil e doente que a batedora de portas e decidisse se vingar fazendo as necessidades fisiológicas no sofá. O que até a presente data ainda não ocorreu. 
Quando um casal vive junto, o relacionamento entra em um outro nível. É muito diferente de quando se sai em encontros ou mesmo quando se namora. Você convive com o melhor e o pior de alguém, diariamente. Quando se discute ou se briga, não existe a possibilidade de cada um ir até a sua casa respirar fundo e ponderar. No meu caso, não existe sequer a possibilidade de cada um ir para um cômodo respirar fundo e ponderar. Tenho uma micro-cozinha americana linda, porém minúscula. E em algum momento alguém precisaria passar pela sala para abrir a geladeira e tomar uma água.
Isso sem contar com a divisão territorial da cama. Admito ser viciada na adrenalina de uma pequena discussão, mas, de alguma forma, o casal precisa se entender antes de dormir. É extremamente desconfortável fazer do seu colchão uma faixa de Gaza. Por mais orgulhosa que eu seja, dormir brigada é algo que considero fora de questão. Vamos ficar acordados até nos matarmos, mas se for para dormir, quero paz.
Deve ser por isso que minhas brigas nunca chegaram a durar muito. Seria inviável manter uma discussão por dias. Claro que eu ainda bato umas portinhas de vez em quando, mas tenho aprendido que admitir que estou errada não significa, necessariamente, perder uma discussão. Ok, mentira. É claro que significa. Mas perder uma discussão não significa, necessariamente, que você deixou de ganhar algo.
Quando você se levanta, bagunça o tabuleiro e se retira do recinto, você divide sua insatisfação com os outros jogadores, que provavelmente também vão terminar a partida bastante frustrados. Mas só porque ninguém venceu, não significa que você não tenha perdido. Aceitar que não se pode ganhar todas é uma conquista gigantesca
Ao bater portas, literalmente ou não, você se fecha para o diálogo, para a compreensão e, em última instância, para o seu crescimento. A obsessão por estar sempre certo e por não perder nunca é o que acaba, ironicamente, impedindo alguém de ganhar tantas outras coisas. Siga o conselho de uma batedora de portas. Vez por outra, vale mais a pena abri-las. 

(Texto escrito para Lola Magazine, publicado na edição de abril/2012)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A síndrome do parque de diversões


  Quando eu tinha uns três ou quatro anos, minha mãe me levou pela primeira vez a um parque de diversões. Não era lá um grande parque, mas supõe-se que as crianças têm essa vantagem de ser imaginativas e de se contentar com bobagens. Na verdade, as adultas também. Vira e mexe vejo amiga contando que conheceu um cara ótimo, que esperou um táxi com ela na rua e até mandou mensagem no dia seguinte. Daquelas criptografadas, do tipo “bom t v, bj p vc”. Quer dizer, o cara não se dá nem ao trabalho de escrever a palavra inteira, o que que custa escrever a palavra inteira?! É o nosso primeiro encontro, inferno, escreva a droga da palavra inteira!
  De todo modo, minha mãe conta que nunca esqueceu minha reação quando fui àquele parque. Ela diz que durante o passeio todo, eu estava sempre olhando para o próximo brinquedo, nunca para o brinquedo em que a gente estava. Como se eu estivesse o tempo inteiro buscando algo de fora, algo distante. Como se eu fosse incapaz de aproveitar o que estava bem ali, diante dos meus olhos, naquele momento. Ok, ela não disse isso. Mas me fez pensar. 
  Quando saí da casa da minha mãe e fui para o meu primeiro apartamento, tudo era novo e empolgante. Móveis para comprar, decoração para fazer, cortinas, tapetes, cacarecos diversos... e quando a casa finalmente ficou do jeito que eu queria, do jeito que eu sempre quis que a minha casa fosse, eu comecei a ficar inquieta. Passei sonhar com o meu próximo apartamento, aquele que ainda não posso bancar, com varanda, flores na varanda – mas tem que ser aquela varanda que só se vê em filmes europeus –, um animal de estimação, talvez um closet gigante. Ah, como seria ótimo ter um closet gigante...
  E em vez de relaxar e desfrutar da minha conquista, eu resolvi olhar para o próximo brinquedo, tal como aquela garotinha de três ou quatro anos, imaginativa. A diferença é que agora, eu não me contento mais com qualquer bobagem.
  Apesar de (ainda) não ter aquele closet gigante dos sonhos, nunca estive tão orgulhosa do meu guarda-roupa. Entenda que eu fui, por muitos anos, uma adolescente estranha, com roupas estranhas e nenhum talento para me produzir. Minha única referência de maquiagem era aquela Barbie da cabeça gigante, e eu lembro que quanto mais sombra azul e batom rosa eu tacava na coitada, melhor maquiadora eu me considerava.
  Eu comprava revistas de moda e pensava com todas as forças que um dia queria ser como uma daquelas mulheres. A fase de querer ser igual às modelos esquálidas felizmente já passou, pois aprendi a gostar do meu corpo como ele é. Ok, mentira. Eu continuo querendo ser exatamente como aquelas modelos esquálidas, mesmo compreendendo perfeitamente a função do Photoshop.
  Hoje eu não me sinto mais aquela garota estranha e deslocada. Mas, ainda assim... maldito parque de diversões e a obsessão pelo próximo brinquedo. Outro dia mesmo, quase gastei meu salário inteiro comprando uma bolsa Prada. Por sorte, o banco bloqueou meu cartão de crédito, sob a alegação de que eu estava realizando uma compra fora do meu perfil. Sábio banco. Mal sabia ele das indagações que aquele procedimento padrão iria despertar em mim.
  É inegável que isso tudo está ligado a uma certa tendência autodestrutiva. Não me leve a mal. Assim como você e o Will Smith, eu também estou à procura da felicidade. Mas tem dias que esse complexo do parque de diversões ataca com força. E em vez de aproveitar o meu brinquedo, eu me vejo olhando para os lados, inquieta, buscando sei lá o quê.
  Quando eu odiava meu trabalho e saía todas as noites, eu reclamava que as coisas não estavam acontecendo para mim. Quando as coisas finalmente aconteceram para mim e eu me enchi de trabalho, comecei a reclamar que não tinha mais tempo de sair e conhecer caras interessantes. Quando conhecia caras interessantes e eles não queriam nada sério comigo, eu reclamava que ninguém queria nada sério comigo e que eu iria ficar sozinha pra sempre. Quando eu conheci um cara interessante que quis algo sério comigo, eu comecei a reclamar que não sobrava mais tempo pra ficar sozinha.
  Por que raios isso acontece? Por que nunca estamos plenamente satisfeitos com o que temos? A inquietude é saudável até certo ponto, afinal, ter objetivos e vontades é o que nos move. Mas o que fazer quando estamos constantemente nos questionando se o que temos é realmente o melhor que podemos ter? E por que aquilo que não temos só parece melhor até o momento em que passamos a tê-lo? Como aquela bolsa Prada que eu nunca comprei. Será que na minha casa, dentro do meu guarda-roupa modesto, que não é um closet gigante dos sonhos, aquela bolsa seria tão linda, vermelha e brilhante? Provavelmente sim. A quem estou enganando, eu quero aquela bolsa agora.
  Outro dia, entrei em algum tipo de crise temporária, mais conhecida como “modo autossabotagem on”, e dispensei meu namorado, um cara legal de quem eu realmente gosto, para ir a uma festa à la solteira com os amigos. Só que os amigos também acabaram conhecendo caras legais. E eu fiquei sozinha.
  A ironia da coisa é que eu passei anos – eu disse anos – reclamando incessantemente sobre como eu queria encontrar alguém. Não que eu tenha problemas em lidar com a minha própria companhia, muito pelo contrário. Tem noites em que tudo o que eu quero é ficar sozinha em casa, vendo filme e bebendo vinho. Mas a perspectiva da solidão eterna me assusta. E quando eu finalmente encontro alguém legal que realmente gosta de mim, eu me apavoro e me coloco numa situação patética de solidão.
  Lá estava eu, absolutamente sozinha. Por opção, mas uma opção mal feita, pelos motivos errados. Eu escolhi o outro brinquedo no parque de diversões e tratei meu namorado como uma bolsa Prada esquecida no armário.
  Mas eu ainda estou aprendendo. Com sorte, vou saber apreciar uma boa volta na Roda-Gigante – apesar de achar a Roda-Gigante um brinquedo bobo e sem propósito, além de ter medo de altura. Com o tempo, a gente acaba conhecendo bem o parque que tem em volta e aprende quais são os brinquedos que valem a entrada. Sábios são meu banco e minha mãe, que enxergam muito além daquilo que eu mesma sei sobre mim.

 (Texto escrito para a revista LOLA, publicado na edição de nov/12)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Todas as responsabilidades do mundo


Imagine que a vida é uma página em branco do Word. Eu me vejo diante dela, pensando em como preenchê-la da melhor maneira possível. Porque se a vida se resumisse a essa página, a pressão sobre o texto aumentaria drasticamente. É como se, de repente, cada linha escrita se tornasse uma decisão crucial. Cada escolha de palavra, cada vírgula, seria um caminho sem volta – não fosse, é claro, pela tecla “delete”.
A página em branco é promissora. Ela é uma utopia. Tudo, absolutamente tudo pode ser feito nela. E é justamente por isso que ela é o ícone emblemático do bloqueio criativo. Quando estamos diante de todas as possibilidades do mundo, escolher uma delas se torna uma tarefa quase impossível.
Tenho vinte e sete anos. Faço parte da geração que foi apresentada à internet na adolescência. A partir daí, um universo de novas possibilidades se abriu e continuou se expandindo. Quando nos demos conta, a vida se tornou uma página em branco do Word. Só que online. E ditada por dois conceitos básicos da modernidade: a obsolescência e o banco de dados.
As pessoas da minha geração – e mais ainda das seguintes – passam a vida toda oscilando entre o passado e o futuro. O primeiro porque as timelines facebookianas, os históricos de e-mails e mensagens, o armazenamento quase que eterno de todo o conteúdo já postado na história da internet, não nos deixa esquecer jamais de que não podemos nos esquecer jamais. O banco de dados é para sempre e nosso passado nos condena. Para sempre.
Quanto ao futuro, já faz tempo que a Deus não pertence. Porque se pertencesse seria moleza. Ninguém sofria de depressão na Idade Média. Peste negra, sim. Ataque de ansiedade, certamente que não. E quando o futuro a nós pertence, voltamos àquela página em branco do Word. Aliás, eu juro que o Word não está patrocinando este texto.
Eu sei que é clichê dizer isso, mas vivemos numa época em que o futuro se torna obsoleto muito rápido. Tudo é muito “last season”. O único fator invariável é a nossa permanente insatisfação. Somos incapazes de nos sentir plenos porque a plenitude está relacionada com o presente, o agora. E por mais contraditório que isso possa parecer, as novas gerações não vivem o agora.
Fico assistindo a Mad Men, uma das minhas séries preferidas, ambientada nos anos 60, e fico pensando sobre como devia ser a vida daquelas pessoas. Outro ritmo, sem dúvida. Mas, principalmente, muito menos possibilidades. Nossos avós, e até mesmo nossos pais, viveram num tempo em que o campo de escolhas era bem mais restrito. Era tudo muito mais simples. Não tão simplório como na Idade Média, claro, até porque já existia a psicanálise e a solução para os problemas mentais não se resumia a trancafiar pessoas numa masmorra.
Tenho a impressão de que os jovens dos anos 60 e 70 viviam mais o presente. Nada mais “aproveite o agora” do que o LSD. Minha primeira e derradeira experiência lisérgica foi marcada justamente por ter sido a única – eu disse única – vez em que eu me senti vivendo o momento. Foram as horas mais plenas da minha vida, ainda que eu saiba que foram horas sintéticas.
E por que eu não me sinto assim no meu dia-a-dia? A resposta é inevitável. Página em branco do Word. A pressão pelo texto perfeito ou pela vida perfeita torna tudo muito mais aflitivo. Vivemos nesse limbo entre as frustrações passadas e as aspirações futuras. Entre um e outro, todas as possibilidades do mundo. É lindo, é poético, e é terrivelmente assustador. Porque escolher uma possibilidade implica em não escolher todas as outras. Toda ação carrega junto de si o peso de centenas de milhares de negações.
Eu, por exemplo, já passei da metade deste texto. Minha página em branco já não está mais tão em branco assim. Eu fiz escolhas dentro desse vasto, quase infinito campo de possibilidades. E vou ter que viver com elas. Eu e você, meu cúmplice, que está lendo.
Posso estar redondamente enganada, mas acredito que esse medo de escolher, esse bloqueio criativo da vida real, está, em última instância, ligado ao mais “roots” de todos os medos – o inexorável medo da morte. Quanto mais possibilidades nós temos, mais consciência tomamos de nossa condição efêmera, pois somos confrontados com o velho dilema de “o que fazer antes de morrer”. E queremos fazer tudo. Queremos ir para todos os lugares, conhecer todas as pessoas interessantes, trilhar todos os caminhos até esgotarmos todas as opções possíveis e existentes.
E nesse meio tempo, perdemos de vista o agora. É como se nossa geração tivesse assinado um compromisso velado de, haja o que houver, jamais perder tempo vivendo o presente. É um fardo que carregamos por termos sido contemplados com todas as possibilidades do mundo. Temos uma página inteira em branco, com todas as letras, símbolos e algarismos a nossa disposição e, mesmo assim, nos pegamos constantemente insatisfeitos com as palavras que formamos.
Se transpusermos isso tudo para a vida afetiva, então, fica mais que evidente qual é o cerne das nossas frustrações. Mesmo princípio da página do Word. Quanto mais possibilidades nos são apresentadas, mais inseguros ficamos. A incerteza é a única constante. Temos dúvidas sobre nossos sentimentos, dúvidas quanto aos sentimentos do outro, medo de nos tornarmos obsoletos, medo de repetirmos os erros do passado. E permanecemos insatisfeitos, especulando, especulando. Sempre olhando para os lados, em busca.
Não sou presidente de nada, mas “nunca antes na história” tivemos tantos caminhos a nossa frente. Tipo agora. Bem agora, quando você termina de ler meu texto, o mesmo texto que escrevi em minha página em branco. Aqui reside a prova incontestável de que toda escolha implica em consequências. Estamos hoje diante de todas as possibilidades e todas as responsabilidades do mundo. Só não sabemos o que fazer com isso.

sábado, 4 de agosto de 2012

A Psicose Elementar (ou: Yeah uh I am a scientist)


Sem pipetas, nem buretas, acabei de fazer a descoberta mais importante da minha vida de hoje à noite. Após anos de sofrimento, finalmente consegui isolar a partícula elementar da adorável psicose.
Ocorre que a fórmula para se chegar ao "estado de Natalia" parte do axioma de que o nível de psicose é diretamente proporcional à quantidade de afeto que se tem por uma pessoa.
Guardem isso.
Agora adicionem ao assunto anterior uma novidade, que tenho evitado há algum tempo compartilhar. Uma certa notícia envolvendo o fato de que eu estou namorando.
Sim, eu estou namorando. Eu. Estou namorando.
E andei sumida por total carência de assunto. Sempre tive a impressão de que este blog só se manteve funcionando porque nunca me faltou motivo para reclamar. Falar sobre como não tem absolutamente nada de errado me acontecendo ou como pela primeira vez na vida eu estou em uma relação saudável não me parece um bom atrativo para os leitores.
Mas a verdade é que eu não tinha nada para lamentar ou protestar. Nem sequer indagar. E sem indagações, eu não fico reflexiva. E sem reflexões, não sai texto. Pelo menos não em "Adorável Psicose".
Até hoje.
Há alguns minutos, na verdade, quando me ocorreu uma epifania científica. Aquela que descrevi lá em cima, quando fiz referência a pipetas e buretas. Que são instrumentos de laboratório, caso você não saiba e tenha ficado com preguiça de procurar no Google.
Porque até então eu vinha me sentindo orgulhosa da nova Natalia. Uma outra mulher, mais cool e menos ansiosa, que não se apega a neuroses e minúcias desnecessárias. Eu me sentia essa nova pessoa, mais evoluída e moderna, quase europeia.
Mas não.
Por isso, concluí que a partícula elementar da minha adorável psicose é formada no exato instante em que a existência - ou a não-existência - de alguém passa a interferir no meu percentual de felicidade. E é nesse momento, nesse ínfimo recorte no espaço-tempo, em que eu deixo de ser a nova Natalia e volto a ser a boa e velha (e aflita, problemática, insone, paranoica, apocalíptica) Natalia.
Hoje eu comprovei uma verdade inquestionável, inexorável, pessoal e intransferível - é bom que saiba no que está se metendo.
Eu serei irremediavelmente psicótica enquanto gostar de você.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Da arte de cagar um balde


Uma das minhas maiores metas para 2012, 2013 e, provavelmente, o resto da minha vida é aprender a cagar um balde. Não ao pé da letra, prezado leitor doente, porque isso seria nojento - embora o caráter laxativo da coisa seja deveras emagrecedor.
Não que eu já tenha experimentado.
Eu não experimentei.
Mesmo.
Ignorar solenemente os ruídos incômodos, permitir que uma informação entre por um ouvido e saia pelo outro sem perfurar meu cérebro e implodir os meus miolos é algo que ainda está muito além das minhas capacidades. Ao contrário disso, eu me apego a todo e qualquer comentário, palpite e conselho amigo que alguém me dá. Mesmo que eu sequer tenha pedido uma opinião.
Aliás, sejamos francos. Quem começa uma conversa com posso te dar um conselho amigo tem cerca de 95% de chance de ser uma pessoa irremediavelmente mala. Se for homem, tem 97% de chance de ser gay. Se for hétero, tem 100% de chance de ser broxa. No caso das mulheres, todas as vacas que saem por aí destilando conselho amigo querem dar pro seu homem. Se você for solteira, significa que elas são gordas. Não tem erro. As estatísticas são todas do IBGE - Índice Bizarro de Gente Escrota.
Outro dia mesmo fui abordada por uma velha conhecida, digamos, a Hannah, que teceu um comentário inconveniente a respeito da minha vida afetiva. Entendam bem o contexto, a Hannah vai casar. E as mulheres que vão casar - não todas, apenas a cota não-minoritária das patéticas e desesperadas caçadoras de marido-,  têm um problema de Alzheimer seletivo. Elas esquecem que, por anos a fio, não passaram de patéticas e desesperadas caçadoras de marido e, somente porque obtiveram êxito em sua patética e desesperada caça, começaram a se achar pertencentes a uma casta superior.
Quando mulheres como a, digamos, Hannah, laçam seus maridos-alces, elas subitamente viram experts em relacionamentos. E sentem-se no direito de tecer comentários inconvenientes a respeito da vida afetiva dos outros. E esses comentários costumam vir abundantes em solidariedade e amor ao próximo. No caso de Hannah, ela fazia menção aos amigos do noivo, que me poderiam ser apresentados durante o casamento - hábito muito comum em círculos sociais e churrascarias rodízio. Só que com a picanha eu ficaria.
Gostaria de ter a sabedoria e a paz de espírito necessárias para ignorar certas coisas. Mas ainda não cheguei lá. Um dia serei como minha mãe, que consegue ouvir qualquer absurdo com cara de paisagem, soltando no máximo um "umhum" de total indiferença. Antes, é claro, eu preciso aprender a ignorar minha mãe.
"Olha, não vou falar nada, não quero me meter, só acho que você fez tudo errado", é um clássico atemporal de mamãe.
Talvez um dia eu consiga dominar a difícil e louvável arte de cagar um balde. Pode ser no fim da vida ou mesmo no fim do ano - que vem a ser o fim do mundo e, portanto, também o fim da vida. Até lá, seguirei a dieta pelo método tradicional.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Obrigada por nada


Não acredito em coisa alguma que venha do nada. Tudo o que eu conheço que veio do nada resultou em catástrofe, como o Restart, o Padre Marcelo Rossi e o próprio Big Bang, que deu origem à nossa existência e todas as outras coisas desagradáveis que vieram junto com ela. Como o Restart e o Padre Marcelo Rossi.
É uma questão estatística. Até a presente data, nada de bom ou útil me aconteceu do nada. Ao contrário, todos os eventos que se sucederam comigo, mesmo os que terminaram bem, sempre ocorreram de maneira a esgotar todas as possibilidades de vergonha alheia, humilhação e autopiedade. Não creio que possa contar uma única história sobre como algo muito incrível me aconteceu do nada e acabou muito bem.
A escola, por exemplo, foi uma das experiências mais traumáticas e abomináveis da minha vida. Não que eu me ache assim tão especial. Tenho consciência de que esse é um período difícil para a maioria das pessoas. Mas quando passamos por uma situação adversa, nosso instinto de sobrevivência nos leva a assumir uma postura defensiva. Camaleões mudam de cor, insetos se fingem de mortos, alguns peixes até mudam de sexo - o que deve ter menos a ver com mecanismo de defesa do que com o fato de serem umas bichonas -, e tudo isso é feito com o único e imprescindível intuito de não ser notado.
Só que fica difícil não ser notada quando você tem o dobro da altura de todas as crianças da sua turma - juntas -, usa um par de óculos horrendo, aparelho nos dentes, e seu cabelo pode ser confundido com um criadouro de gambás. Minha mãe, preocupada que sempre foi com minha noção de pertencimento, decidiu me tirar aos nove anos da escola judaica, onde todos eram tão geneticamente desfavorecidos quanto eu, e me matriculou em um colégio onde eu não conhecia ninguém.
Minha mãe diz que não queria que eu fosse educada dentro de um sistema de ensino religioso. Assim sendo, ela me pôs em uma escola adventista. Poderia ter sido um colégio laico, mas não. E, para garantir que eu não receberia nenhum tipo de ensinamento bíblico, ela fez questão de que me retirassem da sala durante as aulas de religião. Porque não bastava que eu fosse uma anomalia grotesca de altura desproporcional e cabelos medonhos. Eu também precisava ser o Anticristo.
Foi preciso algum tempo para que eu finalmente me encaixasse nos parâmetros estéticos da sociedade, o que só prova que nenhum evento bem sucedido na minha vida aconteceu do nada. Inclusive - e principalmente - na minha vida amorosa. As experiências anteriores me mostram que nada de muito interessante pode me ocorrer sem que, necessariamente, eu tenha que passar por todo aquele caminho tortuoso de vergonha alheia, humilhação e autopiedade - como foi minha passagem pela escola.
Do nada, se sucederam as piores tragédias da História da Humanidade, incluindo a ascensão de Hitler, o Restart, os fãs do Restart, o padre Marcelo Rossi e, principalmente, minha vida amorosa. Do nada, eu só posso antecipar uma jornada frustrante de volta ao ponto inicial. Do nada, eu não espero mais coisa alguma. E é aí que reside a grande ironia. Porque quando não se espera nada, absolutamente nada, alguma coisa sempre acontece.

terça-feira, 5 de junho de 2012

A Crise ou O Soneto da maturidade feminina é apenas um nome de um chá ruim


Crise. Vem do grego krísis. Dentre algumas definições médicas que eu espero que não venham ao caso,  o dicionário nos dá as seguintes explicações: momento crítico ou decisivo; situação aflitiva; conjuntura perigosa, situação anormal; momento grave, decisivo. 
Pois bem, eu estou em crise. E como toda crise, ela não surgiu do nada. A crise geralmente começa disfarçada de qualquer outra coisa, sempre muito trivial. Uma preguiça de levantar, uma dorzinha de cabeça que nunca passa, um desânimo recorrente. Dali a pouco, nasce um nó na garganta, que não pára de crescer. E tudo que costumava te motivar, agora te causa profundo desdém. E só tende a piorar, até que o nó na garganta se torna tão imenso que você começa a sufocar lentamente. Então você sabe que está em crise. 
Não sei se chega a ser uma crise dos trinta, visto que tenho honrosos vinte e sete. Mas como tudo hoje em dia acontece mais cedo - culpa do aquecimento global, claro -, talvez seja uma crise associada ao que ter trinta anos representa.
Sempre achei que essa passagem mítica para a fase adulta se daria quando eu conquistasse minha independência financeira, mas não foi. Depois acreditei que ela pudesse acontecer quando eu tivesse minha casa. Também não. A minha vida inteira, eu sempre tive certeza do que queria. O que é bom, porque sempre fui muito focada. Mas também se tornou um fardo, porque fui sempre tão focada que qualquer variação do plano original se transformava em algo impossível de lidar. Agora estou tão perto de ter tudo o que sempre quis, que quase consigo sentir o cheiro da epifania que vai acontecer muito, mas muito em breve.
Porque depois de todo esse tempo travando batalhas para me tornar quem eu queria tanto ser, chego à conclusão chocante de que a carapuça já não me serve mais. Pela primeira vez em todos esses anos, eu não faço ideia da pessoa que quero ser ou daquilo que quero fazer.
Só então eu pude entender no que realmente consiste a passagem para a fase adulta. Claro que tem muito a ver com assumir responsabilidades e compreender que, em última instância, você deve contar apenas consigo mesmo. Mas também tem a ver com perder o medo de errar. Até porque, quando você assume as responsabilidades pelas suas escolhas, como um adulto deve fazer, o ônus é todo seu. Então, se der errado... bom, dane-se. 
Estou em crise. Minha vida está toda bagunçada. Minha cabeça está uma zona. Mas, de alguma forma, sinto que a faxina que está por vir será a mais revigorante de todas. Principalmente porque ela não será definitiva. Quando a gente arruma demais, não sobra espaço para o inesperado surgir. E eu estou oficialmente deixando de programar tudo. Eu quero me deixar ser surpreendida e, quem sabe, com sorte, surpreender a mim mesma.
E quando me perguntarem quais são os planos para o futuro, eu vou responder qualquer coisa, mas estarei pensando o que jamais imaginei pensar. Eu realmente só quero ser feliz. Enquanto isso, bebo um chá que eu comprei numa loja de produtos naturais, de nome poético, mas de gosto estranho. 

 
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