natalia

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Psicose Reflexiva 4 - Sobre dores de cabeça e outros incômodos


Não faço análise. Até a presente data, nenhum terapeuta foi capaz de me segurar. Sou uma garota difícil.
Em compensação, escrevo este blog. Aqui, conto com terapeutas anônimos, de todas as partes e que seguem diferentes linhas psicanalíticas. É por isso que eu deixo aí embaixo um link chamado "Diagnósticos". É a minha forma de descobrir o que os outros psicóticos pensam das minhas psicoses.
Pois bem. Outro dia tive um daqueles primeiros encontros bem típicos. Cinema e pizza. Seria ótimo, não fosse pela dor de cabeça sobre-humana que se apossou de mim durante o filme, feito um belzebu dos infernos.
Na saída, apesar daquela dor horrível praticamente sussurrar no meu ouvido: "se mata, se mata, dá um tiro na sua testa agora", eu aceitei ir comer pizza. Cheguei a mencionar que estava sentindo um leve incômodo na cabeça e procurei alguma farmácia nas proximidades. Não encontrei.
Depois de comer, creio que acabei alimentando a entidade monstruosa que habitava meu cérebro, porque a dor foi se tornando cada vez mais forte, até chegar no limite do insuportável. A ponto de eu não conseguir mais desenvolver nenhum raciocínio. Eu só olhava fixamente para aquela faca repousada sobre a mesa e pensava: "E se eu fizer furos na minha cabeça, será que ela vai embora?".
Eu queria ser honesta, queria dizer a ele exatamente o que eu estava sentindo naquele momento, que era algo bem parecido com "AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH!!!!". Mas não podia. Eu tinha disfarçado por muito tempo, não dava para voltar atrás. Ia parecer que eu tinha inventado uma dor de cabeça do nada. E logo dor de cabeça, a desculpa mais clichê que existe. Não. Eu tinha que levar aquilo até o fim.
Voltando para casa, não havia mais como disfarçar. Eu estava começando a ficar autista. Então ele perguntou: "Você está com muita dor, né?". Eu só fiz que sim, com uma cara de tacho, de criança pega fazendo besteira. E eu tinha mesmo feito besteira.
O caso da dor de cabeça foi um exemplo simbólico, claro e inegável de que eu realmente preciso rever meu modus operandi. Eu sempre faço isso. Sempre escondo o que estou sentindo e me convenço de que está tudo bem, esperando que as coisas melhorem. Mas as coisas não vão melhorar sozinhas, do nada.
Para sua dor de cabeça passar, assim como qualquer outra coisa chata na vida, você precisa tomar uma atitude. E a primeira delas é admitir que algo está incomodando. As pessoas não são adivinhas. Quanto mais você se esforça para mostrar que está tudo bem, mais longe você fica de encontrar o remédio.
Nunca nenhum terapeuta conseguiu colocar essa questão de maneira tão evidente. Tô achando que o blog é mais jogo...

14 comentários:

  1. Tá aí uma coisa que aprendi,um pouco tarde talvez, mas aprendi: falar do que me incomoda, falar do que me faz mal, falar do que sinto... FALAR! Falar de forma objetiva , sem enrolação!
    Porque é bem o que vc escreveu: As pessoas não são adivinhas!!!
    Abração...

    ResponderExcluir
  2. Agora é que não entendi nada!!!! Nós, homens, sempre vemos vcs falando pelos cotovelos e a moça aí em cima revelou ter aprendido o quanto é importante falar tudo. Poxa, minha cabeça vai explodir com esta dúvida!!!!

    ResponderExcluir
  3. eu sou uma psicótica que não precisou aprender a sempre dizer oq sente, pq eu sempre disse! demais até... e tirei uma lição diferente: nem tudo deve ser dito. uma boa disfarçada cai bem em certas situações... Bjo, Ana

    ResponderExcluir
  4. minha enxaqueca me acompanha desde os sete anos de idade... a idéia da faca me passou várias vezes na cabeça, assim como paredes ao redor parecem tentadoras nesses momentos rsrsr falar o que me incomoda ou que não estou bem não é o meu forte também (aliás, fingir que sou forte é o meu forte...) e descobri (há pouco tempo e com muitos reais em terapia) que é justamente isso que causa minhas dores de cabeça... ô vida... srsrs

    ResponderExcluir
  5. E se eu falar tudo o que eu penso e sinto e as pessoas verem o quão psicótica eu sou e fugirem de mim como o diabo foge da cruz?
    Não seria melhor dar uma "peneirada" no que dizer antes falar?
    Sei lá, nem todo mundo entende e aceita a mente dos psicóticos...
    E, na verdade, ser psicótica não é motivo de orgulho pra ninguém, então, acho que seria melhor eu aprender a me controlar, antes de sair por aí falando tudo o que me dá na veneta...

    ResponderExcluir
  6. Por isso é bom ser homem, para dizermos tudo o que pensamos basta falarmos em sexo, futebol e comida!!!!!

    ResponderExcluir
  7. Dri e Ju,

    Nem 8 nem 80, né. Creio eu, na minha vã filosofia psicótica, que o nível de honestidade é diretamente proporcional ao grau de intimidade que você tem com a pessoa. Uma coisa é dizer que está com dor de cabeça, outra é desatar a falar que se sente insegura com o relacionamento ou que está sendo seguida por duendes do mal, por exemplo. Beeem diferente.

    Cleomar,

    Hahaha, "sexo, futebol e comida", né? Já vi que você é um cara complexo. Mas, olha, uma dica: falar pelos cotovelos não quer dizer falar sobre o que realmente importa. Às vezes as psicóticas falam sem parar justamente para evitar as questões que incomodam. Total defesa.

    Beijos!

    ResponderExcluir
  8. Infelizmente vcs conseguem pensar duas ou mais coisas ao mesmo tempo, sinal de que, ao falarem, conseguem, também, ouvir outra voz dizendo grandes verdades. Portanto, não deve ser fácil esconder suas verdades, mesmo falando pelos cotovelos.

    ResponderExcluir
  9. Bá! Agora tu disse a maior verdade de todas: "o nível de honestidade é diretamente proporcional ao grau de intimidade". Na verdade, acho que é esse o "xis" da minha questão. Meu problema não é não falar o que eu penso, é ainda não ter intimidade o suficiente pra falar e morrer de medo que esse dia nunca chegue. Matei a charada!
    Viu só? Agora quem tá dando diagnósticos é tu!

    ResponderExcluir
  10. isso acontece mesmo, mas eh foda virar e dizer q tah com dor de cabecah auahuahu
    mas, sim, falar eh necessario, msm q a dor de cabeça nao seja de verdade... bonito post!

    ResponderExcluir
  11. Olá, Natalia "Psico" Klein, beleza? (se é que isso é possível para uma psicótica... :P )

    Entrei muito por acaso no seu blog fazendo uma pesquisa sobre o filme Psicose no google e, para minha surpresa, me deparei com um blog ótimo, com textos autênticos e de personalidade.

    Legal!

    Já está nos meus favoritos.

    Com o tempo, vou acabar fazendo alguns diagnósticos, pode esperar.

    Agora, por hora, posso te pedir um favor?
    ("que cara-de-pau", ela pensa, "acabou de entrar no recinto e já tá pedindo favores")
    - você saberia me dizer qual é o artista criador dessa pin-up que ilustra essa postagem? Curto muito Pin-ups, faço algumas também pois sou ilustrador, e não reconheci essa. Tem alguma informação dela?
    Valeuzão e parabéns pelos textos!
    ;)

    ResponderExcluir
  12. Deve ler muito aqui pessoas dizendo que se identificam com seus textos. Mas sempre que leio "cefaléia" quase tenho uma síncope, dessa vez também. "E se eu fizer furos na minha cabeça, será que ela vai embora?". além disso, sou inegavelmente alguém que limita suas queixas. Identificável é pouco pra qualificar o "psicose reflexiva 4"

    ResponderExcluir
  13. Ser homem, gostar de futebol e sexo mas nao ter a psicose nada para aí orientada... é meio caminho para a maioria dos macholas tentarem por um rotulo de gay.
    Eu tenho enxaqueca desde pequeno mas com medicaçao consigo por fim aquele latejar que parece que vai fazer implodir a cabeça, antes disso quis muitas vezes bater a cabeça contra parede ate partir um pouco e tirar a pressão lá de dentro xD
    De momento fujo de pessoas como o diabo da cruz e vivo nessa ansiedade de me isolar e querer estar com toda gente. Por ter falado demais antes de saber que era psicotico expus-me demais e sem protecçao, andei na vidaa fazer queda livre sem para quedas.
    Gostei dessa partilha e dos comentarios seguintes. Por um lado não adianta discutir nada nem tentar perceber o que quer que seja, pois nada tem fim nunca e em alguma altura a atenção vai mudar a cabeça para outro assunto. Mas é bom ler o que voces pensam e poder partilhar também.
    Agora deixo a minha duvida, gente como nós sente esta empatia mas uma relacao entre dois seres assim seria um mergulho no caos, pelo contrario um relacionamento com alguém "normal" é instabilidade para essa pessoa, só vai querer fugir mesmo gostando...

    ResponderExcluir

 
Designed by Thiago Gripp
Developed by Márcia Quintella
Photo by Biju Caldeira