natalia

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre o alho poró


Entrei no supermercado decidida a comprar legumes e verduras. "Alho poró", concluí. "Nunca comprei alho poró, vou comprar alho poró", refletia, orgulhosa, enquanto me dirigia à seção de hortifruti, onde tudo é mais verde que uma mala cheia de dólares.
Chegando lá, me deparei com um empecilho. Não conseguia encontrar o alho poró em meio a tanta variedade de artigos monocromáticos. Foi quando pedi ajuda a um dos funcionários do supermercado.
"Por favor, você saberia me informar se tem alho poró?", perguntei, excessivamente formal, como devem ser as pessoas que se alimentam de alho poró.
"Ali", ele respondeu, com o que seria o oposto da minha postura. Creio que ele chegou a assoar o nariz, logo após enunciar algo que variava entre uma localização geográfica e um nome muçulmano.
"Onde exatamente?", tornei a perguntar.
"Bem ali".
Eu virei para olhar o que deveria ser bem ali, mas não consegui identificar o objeto da minha busca. Foi quando o funcionário perguntou, num tom quase debochado:
"A senhora sabe o que é um alho poró?".
Que insulto. Especialmente pela forma como ele falou a palavra "sabe". Uma ênfase que pontuava a minha total ignorância em relação a um assunto que eu me esforçava tanto para aparentar ter domínio.
claro que eu sei o que é um alho poró", retruquei, dando a mesma intensidade à palavra "claro" que ele havia dado a "sabe". E prossegui: "Eu já vi várias vezes um alho poró... picado no meu prato... num restaurante", disse, segurando o artigo em uma das minhas mãos.
"Ah, é?", questionou o funcionário. "Então por que você tá segurando um rabanete?"
Fiquei muda por alguns instantes.
"Porque foi isso que eu vim comprar", concluí, dirigindo-me ao caixa.
Nesse dia eu não comprei alho poró.

domingo, 23 de outubro de 2011

Boletim da Psicótica


Aos que pediram, fiquem sossegados. Muitíssimo em breve, teremos textos novos aqui no blog. Várias situações malucas têm acontecido, o que não me falta é material.

Enquanto isso, queria aproveitar o espaço (afinal, como diria a Dra. Frida, "meu espaço, seu espaço") para divulgar umas cositas importantes.

Estou concorrendo a dois prêmios super bacanas e a votação é totalmente aberta ao público.

O primeiro é o Prêmio Monet, que elege os melhores programas da tevê por assinatura. Adorável Psicose está concorrendo como melhor humorístico!

Para votar no Prêmio Monet 2011, clique aqui.

O segundo também é bacanérrimo. É o Prêmio Extra, que elege os melhores do ano na tevê aberta. Nesse, estou concorrendo na categoria "Melhor Revelação Feminina", pela personagem Nikita do programa Macho Man.

Para votar no Prêmio Extra 2011, clique aqui.

Por fim, mas não menos bacana, vou postar a entrevista que dei há algumas semanas no Programa do Jô. Pra quem não viu e pra quem quer rever a prova da minha infância constrangedora sendo exibida em rede nacional:

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Psycho Channel - parte 5

Últimos episódios da segunda temporada. Esses e todos os outros
estão disponíveis no canal do Zingo no You Tube:

Episódio 14 - "O Zingo"


Episódio 15 - "A Vaga"


Episódio 16 - "A Sitcom"

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Humor não é bullying


Olhem bem para a foto acima.
Sou eu. Ou melhor, era eu, quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Eu era estranha.
A começar pelo imenso volume vertical do meu cabelo, uma coisa mezzo Marge Simpson, mezzo Elvira Rainha das Trevas. O volume é tão vertical, mas tão vertical, que invade o título da revista fictícia "A Criança". E por pouco não vai ao infinito e além, ultrapassando até mesmo os limites da foto em questão.
Trata-se de uma "edição especial" como diz o lettering. Contendo "beleza", "simplicidade dos traços", "estilo infantil" e, é claro, "vitória da qualidade". Meu rosto, como vocês podem ver, possui um lado obscuro. O Pink Floyd se inspirou nessa foto para compor "The Dark Side of The Moon".
Eu poderia passar o dia mencionando os detalhes dessa rica montagem, de uma Era Pré-Photoshopiana, mas vou me resumir ao que realmente importa agora: eu era estranha.
E uma pessoa com esse nível de estranheza aprende desde cedo o que é ser alvo de piadas. Se hoje eu consigo rir e fazer os outros rirem com isso, é porque um longo caminho já foi e continua sendo percorrido.
Não existe nada mais fácil do que sacanear quem já é frequentemente sacaneado. É tiro certo, todos vão achar graça. Mas aí não estamos falando de humor. O nome disso é bullying.
Anos se passaram desde que essa foto foi tirada e agora eu me vejo em um cenário muito parecido com o que eu vivi quando era só uma garota estranha. Recentemente, dei uma entrevista em que me perguntaram sobre os limites do humor. Por uma infelicidade, publicaram apenas um trecho da minha resposta, em que eu digo que "não posso mais fazer piadas com anão, negros, homossexuais".
É importante deixar claro que eu disse sim essa frase pavorosa. Mas em um contexto muito mais amplo. O que eu expliquei - ou, pelo menos, tentei explicar - é que não se pode fazer piadas envolvendo assuntos polêmicos sem correr o risco de ser tachado de preconceituoso. Mas fingir que o preconceito não existe é infinitamente pior.
Não sou a favor de fazer graça de quem já tem que lidar diariamente com a intolerância. Sou a favor de se fazer piada da intolerância em si. Em colocar na mesa os nossos podres para que a gente lembre que eles existem.
O objetivo do humor, na minha opinião, não é simplesmente fazer rir. Se fosse, contar piadas sobre negros numa convenção da KKK ou sobre judeus na Associação Viva Hitler seria um estouro de sucesso.
Programas como "Seinfeld", "Family Guy", "Modern Family", exploram muito bem essa linha tênue do dito politicamente incorreto. Em "Seinfeld", durante uma cena em uma loja de cadeira de rodas, o vendedor fala, sem pestanejar:
"Esse é nosso melhor modelo, a Cougar 9000. É a Rolls Royce das cadeiras de rodas. Isso é tipo... você quase fica feliz de ser deficiente."
Esse é o exemplo clássico de uma piada que causa uma risada desconfortável, porque vem acompanhada de uma crítica sutil. Pessoas como esse vendedor existem e falam absurdos assim o tempo todo. A graça não está em ridicularizar o deficiente. A piada reside em alfinetar um preconceito vigente, que existe e não deve ser ignorado.
Em "Modern Family", o casal gay moderninho fica indignado quando descobre que sua filha, um bebê vietnamita, é escolhido para fazer um comercial estilo "Godzilla em Tóquio". Ultrajado, um dos pais se levanta e vai buscar a menina, dando um discurso educativo sobre as diferenças geográficas entre o Japão e o Vietnã, enquanto se confunde e pega o bebê errado.
São programas bem sucedidos, que romperam a barreira do tal do politicamente correto em prol de um humor de qualidade, que consegue, de maneira muito sagaz, ser ao mesmo tempo ácido e construtivo.
É nesse humor que eu acredito. Piamente.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Psycho Channel - parte 4

Todos os episódios estão disponíveis no canal do Zingo no You Tube:

Episódio 10 - O Universo Paralelo


Episódio 11 - O Complexo de Édipo


Episódio 12 - O Dr. Feldman


Episódio 13 - O Namorado

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A origem do medo ou Haja o que houver, não leia a cartilha de segurança do avião


Uma vez me perguntaram se eu tinha medo de avião. Respondi que não, claro. Eu não tenho medo de uma estrutura metálica com microjanelinhas de submarino e fileiras de poltronas que espremem suas pernas como paredes movediças do Indiana Jones. Não. Eu não tenho medo de avião. Eu tenho medo é de morrer.

Não possuo nenhum embasamento científico sobre o assunto, mas acredito que todo medo, no fundo, está atrelado ao medo da morte. Fobia a aranhas, elevadores, cobras, medo de entrar no mar, de altura, de ser assombrado por almas penadas sedentas de sangue. Tudo isso é medo de partir dessa para melhor. Ou pior, vai saber.

É por isso que nunca entendi uma certa fobia que vi na tevê faz um tempo, envolvendo – música de terror – botões. Sério mesmo. O cara tinha pavor de botões. Botões, desses de costurar na roupa. O pesadelo desse sujeito deve ser ir a um armarinho. Imagina... Ele olhando pros lados e berrando de horror, ahhhh botões! Botões! – e os botões lá, encarando o botãofóbico como pássaros hitchcockianos.

Se pelo menos fossem zíperes... Zíperes me parecem mais perigosos e, se você se esforçar bastante, pode até morrer de zíper. Infelizmente, ele não resistiu aos ferimentos causados por um fechamento equivocado de zíper. Mas botões? De que forma poderiam estar associados à ideia de morte? É levar muito ao pé da letra a expressão “abotoar o paletó”.

Mas voltemos ao meu medo. Que não é de avião, mas de morrer dentro dele. Ou fora dele, sugada pela pressão exterior. Desde o momento em que a “aeronave” – como eles gostam de chamar, como se a palavra “nave” tornasse tudo menos mortal – acelera para decolar até o exato instante em que a primeira rodinha toca o solo, eu não consigo pensar em outra coisa além de “ai meu deus, eu vou morrer”.

“Ai meu deus eu vou morrer”, enquanto a aeromoça explica como se utiliza uma máscara de oxigênio – procedimento que, aliás, a maioria das pessoas não vai saber fazer na hora, pois nunca prestou atenção na demonstração. “Ai meu deus eu vou morrer”, quando estamos passando por uma área de turbulência. “Ai meu deus eu vou morrer” e minha última refeição será um saquinho de batatas fritas genéricas.

Considerando isso, imaginem qual não foi meu dilema quando, ao esperar a hora do embarque, uma atendente se dirigiu a mim e me ofereceu um lugar no vôo anterior. Quer dizer, clássica situação da pessoa que escapou por um triz de uma tragédia horrível. O problema era deduzir qual seria a “aeronave” condenada: a que constava na minha passagem ou aquela que o destino estava me oferecendo. Porque, não se enganem, um dos aviões estava fadado a cair.

Não pude deixar de pensar naquelas pessoas que se atrasaram para o Titanic. Eu estava a ponto de ter uma história como essa. Ou dar essa história de bandeja para a pessoa que sentaria no meu lugar no vôo seguinte. Assento 3A. Eu gosto de janela.

Acabei abraçando a intervenção do destino e escolhi o vôo anterior. A senhora que entrou comigo achou bom quando viu que o avião estava vazio. Tola, ingênua senhora. Quando eu vi aquela “aeronave” sem quórum de passageiros, eu tive certeza de que iria morrer. E seria uma tragédia meia boca, do tipo dos males o menor, pelo menos o avião não estava cheio. Não duraria nem dois dias nos noticiários. As imagens dos familiares chorando no aeroporto seriam pouco comoventes, coisa de dez, quinze gatos pingados. O cinegrafista teria até que fechar mais o quadro para o assunto parecer minimamente relevante.

Mas eu não tenho medo de avião. Nem de aeronave. Talvez de espaçonave. Não acharia conveniente ser abduzida nesse momento, ando muito sem tempo. Só que morrer aí também já seria sacanagem. Eu acabei de mobiliar meu apartamento e nunca tive um relacionamento sério. Eu ainda nem ganhei um Oscar ou beijei o Wagner Moura. E eu nunca viajei para as centenas de lugares incríveis que pretendo viajar. Provavelmente de avião. E morrendo de medo de morrer.

domingo, 4 de setembro de 2011

Psycho Channel - parte 3

Novos episódios da segunda temporada de Adorável Psicose,
todos postados no canal do Zingo no You Tube:

Episódio 09 - "O Kikito"


Episódio 10 - "O Universo Paralelo"


Episódio 11 - "O Complexo de Édipo"


 
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