natalia

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Guia prático de como se esperar sozinho por alguém em um bar ou restaurante


A primeira coisa que você irá observar quando se vir sozinho em um desses locais é uma súbita e incontrolável necessidade de ocupar as mãos. Quando isso ocorrer, em geral, momentos após você se sentar, recomendamos que siga rigorosamente as instruções contidas neste guia. Elas serão a garantia do sucesso durante sua espera.
Antes de mais nada, olhe bem para suas mãos. O que você vê? Tome consciência delas, admita para si mesmo: “Sim, eu tenho mãos”. Caso você, por alguma eventualidade, não as possua, sugerimos que pule direto para a próxima lição. Do contrário, encare-as com firmeza, deixando claro quem é que manda.
Procure sempre mantê-las ocupadas. Mãos livres são sinônimo de problema. É crucial saber exatamente onde colocá-las enquanto se espera por alguém em um bar ou restaurante. Alternar desordenadamente as atividades manuais pode se configurar como um indício de insegurança. E você não vai querer parecer uma daquelas pessoas que freqüentam bares sozinhas – porque, não se engane, é exatamente isso que vão pensar. Sendo assim, sua postura é essencial. Controle suas mãos. Se as puser sobre a mesa, procure mantê-las ali por um período razoável. Evite movê-las demasiadamente. Mãos firmes querem dizer “estou esperando alguém que, de fato, vai chegar”, em vez do temível “sou um maníaco depressivo que bebe sozinho todas as noites”.
Se preferir, também pode mexer no cabelo – mas apenas um número limitado de vezes. O excesso de mexidas na região capilar pode ser visto como um sinal de caspa.
De uma maneira geral, sinta-se livre para criar sua própria combinação de movimentos. Apenas sugerimos que estabeleça uma certa lógica em sua coreografia e, haja o que houver, jamais manuseie a região genital.


Depois de um certo tempo, você irá observar que o garçom fará uma espécie de dança ritualística em torno de sua mesa. Isso significa que está na hora de pedir alguma coisa do cardápio que lhe foi entregue desde o momento em que você adentrou o local de espera.
Opte por um drink. Um aperitivo, por mais inocente que pareça, pode ser encarado como uma admissão pública de solidão. Seja ousado. Beba algo com um teor alcoólico relevante. Faça dessa espera um momento menos burocrático. Permita-se. Sua companhia chegará logo.


Quando você alcançar o nível desejado de controle dos membros superiores, você irá perceber que possui pernas. Em caso negativo, pedimos desculpas e sugerimos que passe para a próxima lição.
Se continuar neste novo parágrafo, solicitamos que não entre em pânico. Caso suas pernas tenham iniciado uma série de movimentos aleatórios e espasmódicos, isso é sinal de que você chegou a uma nova etapa da espera: a impaciência semi-histérica.
Pedimos, mais uma vez, que mantenha a calma. Não há razão para se preocupar. Essa situação é totalmente reversível.
Experimente cruzar as pernas. Note se houve alguma alteração nos movimentos. Caso não surta efeito, termine sua bebida e vá – sem pressa – ao toalete. Lá, faça uma pequena série de alongamentos, de modo a controlar os espasmos nos membros inferiores.
Com os joelhos semiflexionados, dobre a perna direita e empurre-a para trás. Utilize a mão direita para puxar o pé e proporcionar um melhor resultado. Faça o mesmo com a perna esquerda.
Depois, dobre a perna direita e empurre-a para frente. Ponha as mãos sobre o joelho para ajudar no alongamento. Faça o mesmo com a perna esquerda. Repare que se fizer com as duas ao mesmo tempo, você irá cair – e não economizar tempo. Portanto, não banque o esperto e siga as instruções à risca.
Saia do toalete e aja com naturalidade. Se preferir, dê a descarga antes de sair, para não levantar suspeitas. Nesse caso, lembre-se de também lavar as mãos. E, se em alguma hipótese, alguém abrir a porta do banheiro e o flagrar no meio dos exercícios, não perca a compostura. Mantenha-se firme e apenas diga: “cãibra”.
Ao retornar, peça mais uma bebida.


Quando finalmente tiver recuperado o controle dos membros superiores e inferiores, você irá sentir um leve formigamento nos globos oculares que o levará a um impulso incontrolável de observar os demais presentes no local de espera. Caso não possua olhos, somos levados a crer que você também não esteja lendo este manual, visto que as versões em braile e em áudio ainda não se encontram disponíveis.
De qualquer forma, quando a situação acima descrita se desenrolar, sugerimos que foque seu olhar em objetos específicos. Disciplina é fundamental. É absolutamente desnecessário observar os casais felizes e os grupos de amigos boêmios sentados às outras mesas. Lembre-se de que você não está sozinho. Sua companhia está quase chegando. Você não precisa da piedade deles.
Aproveite que o garçom está tirando o copo vazio da sua mesa e peça mais uma bebida. Peça no capricho e dê uma piscadela de olho para selar o acordo. Se você perceber que o garçom achou que se tratava de um flerte, prove o contrário. Pegue o seu telefone celular e finja ligar para alguém – supostamente a pessoa aguardada.
Aproveite para reler mensagens antigas, isso servirá para distraí-lo enquanto o drink não chega. Vá até a agenda telefônica e veja para quem você pode ligar.
Se você chegar até a metade do alfabeto, desista. Nem pense na letra M. A última coisa que você precisa nesse momento é ligar para sua mãe. Em vez disso, experimente brincar com um daqueles joguinhos disponíveis no seu celular. Lembre-se que você pagou caro pelo aparelho. Desfrute os recursos que ele oferece.
Escolha o que lhe parecer menos complexo, como pinball, por exemplo. Aperte qualquer tecla, como se soubesse exatamente o que está fazendo e solte uns eventuais risinhos, levando a entender que está entretido. Isso deverá enganá-los.


Tal como os heróis nas narrativas épicas, chegará o momento em que tudo estará por um fio. Procure não descontar tudo na bebida, embora você se questione sobre o que teria acontecido com aquele drink caprichado que o garçom acabou de lhe entregar e que agora se encontra vazio à sua frente.
Se você olhar para baixo, irá reparar que seu pé está batendo no chão em intervalos de tempo muito curtos, como se você estivesse bastante impaciente. Note que esse sintoma pode se estender até os braços e as mãos, fazendo com que seus dedos tamborilem sobre a mesa em uma sinfonia desagradável.
Quando isso ocorrer, utilize a mão livre dos espasmos para pedir mais uma bebida e, em seguida, pressione-a sobre a outra mão, tentando conter as batidas dos dedos. Faça o mesmo com os pés. Ignore as pessoas que, por alguma razão, estejam observando suas ações. De maneira alguma as encare. Especialmente aquele casal que ocupa duas mesas só para atender a uma necessidade estúpida de se sentar lado a lado. Como se houvesse algum problema em jantar olhando para a cara do outro. Não, não, mas é romântico assim. “Romântico”, você pensa em tom de desdém, enquanto folheia pela centésima vez o menu. Lazanha é com S, caralho, com S!
Você está à beira de um ataque de nervos quando chega a bebida. Respira fundo e toma a metade em um gole só. Você está sozinho. Sozinho. Todos estão rindo, felizes, e você está sozinho. Ninguém o ama. Ninguém nunca o amará.


Agora, você lembra que não devia ter bebido de estômago vazio. O que você não lembra, entretanto, é quantos drinks já tomou. Você chama o garçom e pergunta. Ele não entende nada do que você diz. Você o acha curiosamente divertido e o convida para se sentar a sua mesa. Mas ele balança a cabeça e responde algo incompreensível, que soa como um toca fitas com bateria fraca.
Ocorre um breve lapso no espaço-tempo e uma bebida surge magicamente diante dos seus olhos. A essa altura, você já não questiona muito, simplesmente aceita.
Mais um lapso no espaço-tempo, agora um pouco maior, e você se vê diante do suposto casalzinho romântico. Você lhe diz algumas verdades e come um pouco da sua "lazanha", sem deixar de tecer alguns comentários ácidos sobre os erros ortográficos contidos no cardápio.


Vcoê não qeur sbaer de conevrsa faida. Fnialmnete se dá cnota que etse maunal é uma grnade bsota! Seguarnças fihlos de uma ptua! Eels não qeurem triar as moãs iumdas de cmia de vcoê!
Vcoê etsá se sentnido óitmo! Óitmo! Carlaho! Se fduer! Se fduer tdoo mudno! Vcoê etsá epserando uma psesoa! Ela etsá cheagndo! Só mias um miunto, vcoês vão ver!
Ok, aogra vcoê foi exuplso do etsabelecmiento. Mas vjea pleo ldao poisitvo, ao meons vcoê não pgaou a medra da cotna.

19 comentários:

  1. adorável! adorável! pena q no meu celular não tem pinball. curiosa a narração em masculino.

    ResponderExcluir
  2. Sabe o que eu queria saber?
    Como você faz o texto troca-letras?
    Escreve certo e vai trocando?
    Digita sem olhar par ao teclado?
    Encarna LadyKate, nossa companheira diária?

    eu sou veloxzone, 00:16, uns 6 minutos, acho...

    ksss

    ResponderExcluir
  3. kkkkkkkkkkk... Adoreeeeiiii. Você me quase me mata de rir! Já aconteceu isso comigo. Só que vomitei na frente da pessoa esperada, olhei pra ele e disse: Vc tá Artasado! foi horrível... mas sobreviví..

    bjo.

    G oliveira.

    ResponderExcluir
  4. Morrendo de rir com a parte "Aproveite para reler mensagens antigas"..pq eu sempre faço isso pra passar tempo!

    ResponderExcluir
  5. ahahaha mto bom o texto! eu sempre mexo no celular, mas mesmo assim fico LOCA esperando.

    teve um dia q eu consegui manter um olhar calmo e a postura tranquila, mas qd a pessoa chegou e disse "oi!" em vez de "desculpa" eu soltei, sem pensar:

    - porra, até que enfim, 40 minutos!

    serio, me arrependi na mesma hora pelo olhar de horror alheio. :(

    ResponderExcluir
  6. Olá, Resolvi deixar o comentário numa postagem mais antiga, vim conhecer os primórdios do Blog. Te vi no Jô. Ele quase não te deixou falar do Blog, não é memso? Abraço PS não te conheço. Tenho o Blog da Policial Feminina...

    ResponderExcluir
  7. Também tive a mesma historia...

    ResponderExcluir
  8. Oi, acompanho seu trabalho tem algum tempo, e foi por um mero acaso que á descobri... Desde então não só falo bem.

    Depois de ler esse seu poster, nunca tinha parado pra pensar.

    Foi ai que... esse final de semana fiquei UMA HORA E TRINTA E CINCO minutos esperando uma pessoa. Passei a lembrar de todas a lições de acordo com os acontecimentos....

    Meu final não foi exatamente como o seu, mas não menos terrível.

    A mesa ao lado rodeada de amigos felizes e falando muuito alto, simplesmente me convida para sentar á eles, pois estavam com dó de mim!

    Que absurdo ouvir isso de um completo estranho.

    ResponderExcluir
  9. Oi.
    Assisto sua série, e me divirto muito. Penso em como é bom vc tratar de questões de relacionamento e aceitação de maneira tão divertida na sua série.Quanto ao blog, vc o fez para desabafar não é? O fato de fazer rir com ele é a cereja do bolo.Muito obrigada por escrever pra si e nos encantar, e continue assim.

    ResponderExcluir
  10. "Guia prático de como se esprar que a internet alheia volte a funcionar e "alguém" retorne ao facebook".
    Abra uma nova guia e digite a letra "a". Se você como eu, lê este blog ha muito tempo, logo irá perceber que é o primeiro site que aparece na barra do navegador. Então, clique e divirta-se.
    Se "alguém" não voltar à conversa, ao menos terá garantido ótimas leituras, enquanto vasculha todos os posts antigos e resolve comentar pela primeira vez!
    Amo este blog! E a série também!!!

    ResponderExcluir
  11. Cada post que eu leio me apaixono mais pelo blog. HDUEHDUEHDUhudheudheudhuHDUEHDUhudheudheudhHDUEH Me divirto muito, Natalia ce é genial muié!

    ResponderExcluir

 
Designed by Thiago Gripp
Developed by Márcia Quintella
Photo by Biju Caldeira