natalia

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Psicose sobre copos ou Todas as possibilidades do mundo


Sou viciada em metáforas. Acho que, ao longo da vida, por várias razões, acabei desenvolvendo um forte poder de abstração e passei a enxergar metáforas em quase tudo a minha volta.
Há alguns dias, estava olhando para um copo e comecei a pensar que ele não fazia muito sentido quando estava parado, ali no canto, sem ser usado. Que um copo não pode ser um copo, a menos que desempenhe sua função. E a função do copo é ajudar no ato de beber. Não que antes dele as pessoas não bebessem. Mas devia ser meio chato ter que juntar as mãos em conchinha na beira do rio e levar água para perto da boca toda vez que se tivesse sede. O cara que inventou o copo deve ter sido bem popular na época.
Como o Santo Graal, os copos são cheios de elementos simbólicos. Copos respiram. Eles se enchem e se esvaziam, repetidas vezes. E precisam disso para existir, igual aos seres vivos. Um copo não pode ser um copo se estiver sempre vazio. Ou sempre cheio. Ele só é um copo quando alguém bebe. É nesse momento, nesse breve instante, que o copo realmente assume sua função. É quando ele vive, com toda a sua "copidade". Mas se ninguém beber, então o copo não respira. Sem respirar, ele não vive. E nunca poderá ser um copo.
Sou viciada em metáforas. Tenho uma facilidade quase autista de criar meu próprio universo, de desgrudar as coisas dos seus contextos originais e associá-las a outras coisas, de acordo com a minha vontade.
Olhando para aquele copo, repousado inutilmente sobre a mesa do meu quarto, não pude deixar de me sentir um pouco triste por ele. Acho que os copos passam a maior parte do tempo esperando para ser copos. Nós que escolhemos não beber.
Copos são corações. Anseiam por ser usados. Entregues. Roubados. Até partidos. Quando os copos se quebram, eles querem ser consertados. Nós é que não queremos nos cortar com os cacos. Mas os copos não. Eles não se importam em ser juntados no chão. Pedacinho por pedacinho. Os copos só querem voltar a ser copos. Para que as pessoas nunca parem de beber. E eles nunca tenham que repousar sozinhos sobre as mesas dos quartos.
Sou viciada em metáforas. Sou viciada nas entrelinhas, no subtexto, no subentendido, nos múltiplos sentidos, nas várias interpretações.
Assim como os copos, estamos à mercê do devir, da transitoriedade e de todas as possibilidades do mundo.
E, para ser bem sincera, não gostaria que fosse diferente.
Mas, sei lá. Pode ser só a cachaça falando.
Porque meu copo está aqui do lado. E eu estou pronta para dar mais um gole.

15 comentários:

  1. filosofia psicótica!

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  2. Não esqueça de citar Duchamp como referência para dar consistência científica a seu trabalho, ainda que todo o texto do copo seja mais metafórico do que parece.

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  3. Eu fico imaginando quando alguém tava cnstruindo o copo. Aquele copo específico. E ele pensando, eu queria tanto ser um vaso. Por alguns sendos ele até achou que seria um vaso. Pequeno, mas um vaso. Até que a primeira pessoa bebeu nele. É por isso que eu, de vez em quando, rego minhas plantas com um copo. Pelo menos, ele tem a chance de or alguns segundos se sentir um vaso. Acho que devemos sempre fazer com que as pessoas também possam se sentir vasos. Paulo Coelhei demais?

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  4. o copo, vinha cantando alegremente...

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  5. Psicólogo de psicóticos10 de julho de 2009 11:44

    Empatia pelos copos já é um começo...

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  6. Verônica Garrido10 de julho de 2009 15:15

    já imaginou como deve ser a vida de um cadeado???
    nem sei porque pensei nisso agora...talvez porque tenha um em cima da minha mesa... ou...será que também sou psicótica????
    kkkkkkkkkkkkkkk
    essa é a minha amiga! sucesso na!!

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  7. Algumas pessoas realmente merecem se sentir um vaso. Sanitário.

    Outras, de repente, podem ser um vaso de plantas com prato embaixo, cheio de água parada e larvas do Aedes Aegypti.

    Acho que os objetos funcionam mais ou menos como as castas indianas. E os papéis higiênicos são os dalits.

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  8. Acho que você devia abrir a sua cristaleira e perceber que existem outros copos. Só uma sugestão...

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  9. Sr. Tequila...

    Cristaleira?? Que tipo de homem usa a palavra "cristaleira"??

    Ok, só me esclarece uma coisa:
    É uma cristaleira Luis XV ou rústica? É com pátina ou provençal?

    Você precisa ser mais específico. Tá pensando o quê? Não saio por aí procurando copos em qualquer cristaleira não...

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  10. Entre copos, vasos e todas as outras possibilidade do mundo, acho que o copa de tequila está querendo expirar.
    rs

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  11. O copo é um objeto de desejo. Nele chegamos com a sofreguidão de uma paixão contida e saciamos a sede, a boca trêmula, procurando afogar o que está te secando. Outras vezes, sedutoramente roçando os lábios em sua borda como se pudessemos fazê-lo sentir os desejos de uma mente inebriada.
    Quase Anônimo.

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  12. ser copo é ficar na servidão. Eu gostaria de ser água. Ou vodka! Quero que me procurem, me queiram, se viciem em mim!
    (carência??? Nããão!)

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  13. você já pensou em seguir "carreira" (se é que podemos considerar uma carreira realmente) na Filosofia?
    me senti numa aula de Antropologia Filosófica lendo esse post kkkkkk
    quando li "copiedade" então... quase fui no topo da página conferir se não tinha entrado por engano no blog do meu professor (SIM eu faço Filosofia)

    parabéns pelas psicos... digo, pelos posts :)

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  14. errata: ao escrever copiEdade, quis dizer copidade rs

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  15. nossa, este post foi bem quântico, todas as possibilidades do mundo. e pensar que o copo algum dia foi outro copo, ou jarra ou janela, na longa cadeia da reciclagem. esse copo algum dia foi areia aquecida e moldada a altas temperaturas, areia que por sua vez veio do fundo do mar paleolítico ou do alto de uma montanha. e que essa montanha um dia foi lava derretida em volta do núcleo sólido do planeta, sofreu uma pressão gigante e saiu pela chaminé do vulcão. e que essa lava um dia foi um asteróide que se chocou com a Terra e abriu uma cratera imensa e acabou se misturando com os minerais nativos. e que esse asteróide um dia foi uma estrela em uma galáxia distante onde ninguém jamais esteve, uma estrela que ficou grande demais, depois se concentrou até ficar pequena e branca e colapsou numa hecatombe de energia. esse copo é feito de poeira de estrelas. como nós. se conseguirmos chegar à conclusão de que não somos o copo, é no mínimo interessante questionar quem colapsou a onda de probabilidades quânticas e escolheu que seríamos gente. e não copo.

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